• Ká Filho

Quem jogou a primeira pedra em Stonewall?

Atualizado: Ago 21

Texto de Ká Filho. Arte de capa de Adri Norris.


Há um tempo atrás eu estava pesquisando esse sub-gênero de música chamada queercore. É tipo um punk transviado (ou queer), tem uma playlist enorme no Spotify sobre. E eu descobri essa música chamada Dancing in the Street da banda Fusilier escondida no meio da playlist. A música faz referência à Rebelião de Stonewall: o “dançando na rua” do título de refere às fileiras, no meio da revolta contra a polícia, onde os manifestantes cantavam enquanto faziam chutes no ar:


“Nós somos as garotas de Stonewall; Nós enrolamos nossos cabelos; Nós não usamos calcinha; Nós mostramos nossos pelos do...”


O clipe da música em si colocava um destaque enorme no combate à violência policial, combate esse que haveria começado com uma primeira pedra jogada contra o corpo tático que prendia e agredida os jovens transviados do bar, mas fica uma grande questão: quem jogou essa pedra? Marsha P. Johnson? Sylvia Rivera? Stormé DeLarverie? Aliás, o que ao menos foi Stonewall?

A Rebelião de Stonewall foi um manifesto gigantesco de três dias contra a autoridade, contra a violência policial, contra a demonização e a patologização da comunidade queer em 1969. Quanto a patologização, a bissexualidade em si era um alvo escancarado, principalmente ao considerar que até hoje a orientação é lida como sintoma de transtornos mentais. Stonewall Inn era um bar de um bairro chamado Greenwich Village. Tal bairro era o único de Nova Iorque onde pessoas LGBTs poderiam viver em comunidade e, comparativamente, em paz. Entenda: nessa época era crime se “transvestir”, era crime dançar lento com pessoas do mesmo gênero. Ser bissexual era doença, coisa de louco, tratado em choque nos manicômios. Haviam vídeos nas escolas ensinando como não se corromper pelo fantasma da transviadagem, o código de autoridade dos quadrinhos censurava qualquer representatividade que poderia, talvez quem sabe, parecer positiva para nós.


Sendo proibido a abertura de locais destinado à um público LGBTs, a máfia ilegalmente abria bares como Stonewall em bairros como o Village para lucrar desses jovens que vinham de todo os EUA em busca de aceitação e liberdade – mesmo se precisassem morar nas praças e nos píeres para conseguirem isso. Era comum em bares como Stonewall serem invadidos pela polícia para prender LGBTs que os frequentavam, em especial aqueles que desafiavam as normas de gênero. Aliás, não entenda os bares como o paraísos da caridade mafiosa: Stonewall não tinha nem ao menos água corrente, a bebida era quente, o lugar era escuro, precário e sujo.


Em uma dessas noites de junho em que a polícia expulsou todos do bar e começou a prender e agredir os LGBTs, alguém tacou uma pedra em Stonewall contra os policiais e marcou o início da primeira grande revolta do movimento queer com a presença prestigiosíssima de importantes figuras, como Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e Stormé DeLaverie. Vale lembrar que, apesar de não ser o primeiro movimento contra o heterossexismo e a transfobia, é o mais lembrado como o marco inicial que impulsionou a discussão e militância dessas questões no mundo inteiro, criando uma onda de ativismo que tem suas consequências visíveis até hoje.


Igual toda a história LGBT, a Rebelião de Stonewall ainda é confusa, e há um mito enorme sobre quem deu o primeiro passo. Havia o conhecimento de que Sylvia Rivera, muitas vezes reconhecida por tacar a primeira pedra, já atuava nas ruas de Greenwich há um tempo. Após Stonewall ela e Marsha formaram a STAR (Ação Revolucionária das Travestis de Rua). Muitas vezes nem citado quando se fala de Stonewall, a STAR foi uma ação importantíssima que fornecia abrigo, apoio e visibilidade à causa das pessoas trans, drag queens, moradoras de rua e não-brancas. A STAR, e a Sylvia, criticava diretamente muitos dos movimentos que surgiram depois de Stonewall como sendo brancos, de classe média e excludente para travestis, transexuais, bissexuais e pessoas negras, latinas e indígenas. Em uma ocasião em que as pessoas a vaiavam na Parada do Orgulho de Nova Iorque de 1973, Sylvia manda todos ficarem quietos e faz um dos discursos mais importantes na história do movimento:


"As mulheres tentaram lutar pela sua mudança de sexo, para se tornarem mulheres, da libertação das mulheres. E elas escrevem para a STAR, não para o grupo das mulheres. Elas não escrevem para as mulheres. Elas não escrevem para os homens. Elas escrevem para a STAR, porque nós estamos tentando fazer algo por elas. (…) Eu acredito no poder gay. Eu acredito em nós conseguindo nossos direitos ou então eu não estaria por aí lutando pelos nossos direitos. Isso é tudo que eu queria dizer pra vocês todos. (…) As pessoas que estão tentando fazer alguma coisa, por todas nós, e não homens e mulheres que pertencem a um clube branco da classe média branca! E é a ele que vocês todos pertencem! Revolução Já!!!!"


Apesar de ser veemente contra os rótulos, Rivera foi uma ativista importante no movimento travesti, latino e bissexual. Ela denunciava que suas identidades eram constantemente apagadas pelo próprio movimento, algo que hoje entendemos como parte da bifobia, do apagamento das identidades bissexuais e monodissindentes. Em outra ocasião em especial, ela diz estar cansada de a rotularem como lésbica por estar junto a uma mulher. “Eu sou Sylvia Rivera. Ray Rivera que saiu de casa aos dez para se tornar Sylvia. Essa é quem eu sou”. Quando a perguntavam sobre o seu gênero ela dizia ser um homem gay; uma mulher gay; uma drag queen; uma street queen; e de novo um homem gay, tudo ao mesmo tempo. Segundo ela, nenhuma dessas identidades se anulavam, muito pelo contrário. Sylvia sempre criticou a binaridade das sexualidades e dos gêneros, e sempre se opôs ao binário; ela se via como fora desse sistema.


Mas não foi Sylvia que jogou a primeira pedra (ou o primeiro copo) contra a violência policial de Stonewall. Na verdade ela era contra essa ideia de a colocarem na posição de “a primeira pessoa que jogou uma pedra em Stonewall”, querendo na verdade queria ser lembrada como uma das pessoas que jogou uma pedra, ou um molotov, em Stonewall. Então será que Marsha P. Johnson foi essa pessoa?


Marsha foi também fundadora da STAR e importante no movimento travesti, negro e bissexual. Ela foi uma drag queen muito conhecida e também outra pessoa que era disforme do gênero. Segundo as pessoas que viveram na mesma época que ela no Village, ela vestia o que queria, como queria e quando queria, sempre ficando nesse espaço fora dos gêneros binários, sempre sendo “feminina e masculina ao mesmo tempo”. Como um adendo, é bom lembrar que, novamente, era crime se “transvestir”. Um dos pontos altos de Marsha foi o contato com o artista Andy Warhol, que a fotografou em seu trabalho chamado “Senhoras e Senhores”. Durante a Rebelião de Stonewall, é muito comentado da vez que ela jogou um copo de vidro em uma janela do bar e gritou “Eu tenho meus direitos civis!”. Segundo Souza, da Aliança de Ativistas Gays, quando Marsha jogou esse copo de vidro, o estilhaço foi ouvido no mundo todo. Segundo Marsha em uma entrevista pela Betty Brown, ela fala:


"Querida, eu quero meus direitos gays agora! Eu acho que é a hora de nossos irmãos e irmãs gays conseguirem seus direitos, e especialmente as mulheres. (…) Eu não tenho nenhuma intenção de ter um emprego enquanto esse país continuar descriminando homossexuais. São apenas homossexuais, bissexuais e androidessexuais querida, e não são heteros."


Em certa ocasião, tanto Marsha como Sylvia foram banidas das paradas do orgulho pois eles não iriam mais incluir drag queens. Isso era ligado diretamente a um movimento que tinha “Gay é bom” como slogan, compostos em sua maioria de homens gays, brancos, que afirmavam que para ser aceitos na sociedade os homens LGBT deveriam usar paletó e gravata e mulheres LGBT vestidos compridos, e se mostrarem como um bom exemplo. Exemplo esse de não se “transvestir” e não serem escandalosos. Esses tipos de movimentos cada vez mais traziam Marsha para ações mais revolucionárias. Como já havia sido pontuado por Sylvia, as pessoas que iam presas nos bares eram justamente drag queens e as butchers (aka caminhoneiras), e foi a revolta da violência contra elas que potencializou a Rebelião de Stonewall e em consequência iniciou o próprio movimento e as paradas de orgulho LGBT. Esses movimentos que excluíam drag queens e pessoas trans eram acima de tudo ingratos, como pontuou Sylvia Rivera em seu discurso em 1973.


Marsha morreu logo depois da Parada do Orgulho em 1992. Seu corpo havia sido descoberto no rio Hudson em Nova Iorque. A polícia se recusava a investigar o caso que se deu como suicídio, porém a comunidade tinha certeza que haveria uma possibilidade imensa de ter sido, na verdade, assassinato. Depois foi descoberto que sim, foi homicídio provavelmente liderado pela máfia, a mesma máfia que teve seu bar destruído em 1969 e perdeu o controle e a exploração da comunidade LGBT.


Mas foi ela que lançou a primeira pedra em Stonewall? Na verdade, ela apareceu na Rebelião quando já estava em seu auge, às duas da manhã, mas se mostrou presente nos dias em que a rebelião continuou. Mas e Stormé, foi ela que tacou a primeira pedra na Rebelião de Stonewall?


Stormé DeLarverie foi uma sapatona de Nova Iorque nascida em Nova Orleans e filha de africanos, aliás reconhecida como “A Guardiã das Lésbicas”. Ela era uma drag king famosa e uma das figuras mais importante nos movimentos das mulheres LGBT e das pessoas transmasculinas. Apesar de não ser claro quanto a isso, e estar muito preso no “disse que me disse”, ela é reconhecida por dar o primeiro soco em um policial na Rebelião de Stonewall. Soco este que incentivou e alimentou o fogo da revolta.


Seu estilo e estética incentivou a quebra de barreiras da moda, que nessa época de prendia (inclusive por lei) muito aos gêneros binários e influenciou a moda e cultura LGBT de maneira que até hoje é muito presente e visível. Ela mostrou para muita gente que podia sim vestir que roupa quisesse, independente da sessão da loja em que essa roupa se encontra. Ela também sempre se apresentava e incluía pautas raciais dentro dos movimentos LGBT e performava nos teatros por toda a Nova Iorque como atriz e drag king. Porém, independente se Stormé deu ou não o primeiro soco em um policial, ela não foi a primeira pessoa que jogou uma pedra em Stonewall.


A falta de clareza sobre isso, e a importância que damos à essa pessoa desconhecida quase que mística e messiânica, nos faz refletir: precisamos mesmo saber quem jogou a primeira pedra? Pois, aliás, eu joguei a primeira pedra. Marsha jogou a primeira pedra. Sylvia jogou a primeira pedra. Stormé jogou a primeira pedra. Você jogou a primeira pedra. A primeira pedra foi jogada pela revolta e pelo sentimento de justiça, esse sentimento que corre por todos os transviados e LGBTs vivos e mortos por todo o mundo. Foi jogado por nós, para nós. Essa pedra que marcou e dividiu a nossa história, assim como Rosa Parks marcou a história do movimento negro se recusando a ceder seu lugar no ônibus à uma pessoa branca. Foi a pedra que nos fez perceber que tínhamos poder o suficiente para nos defender, sem a máfia, sem a polícia. Que tínhamos o poder de lutar de volta, de resistir. Por isso a importância de conhecermos nossa história.


Não podemos nunca esquecer do nosso poder, e como juntos podemos colocar medo em qualquer sistema que venha nos oprimir. Principalmente nesse momento histórico de luta que estamos vivendo, é importante olharmos para nós mesmos, olhar para os nossos igual e fazer o mesmo barulho que o copo quebrado em Stonewall de Marsha fez, e mostrar nosso poder. Vestir nosso poder. Ser o nosso poder. O poder gay, o poder bi, o poder trans, o poder travesti, o poder lésbico, não-binário, assexual, intersexo, queer, pansexual.


Coisas como a música de Fusilier deveriam ser bem mais frequentes. Nossa história não está nos livros de escola, nem nos artigos da faculdade. Nossa história é sistematicamente negada e apagada, tentam nos transformar em corpos sem passado e fazem dos nossos pensamentos e questões irrelevantes e sem embasamento. Quanto mais a gente sabe da nossa história, mais é acumulado essa ancestralidade das realidades passadas, das pessoas que lutaram e morreram por um futuro mais pacífico e justo, mais a gente revive e mantém nossa memória. Não é uma conquista pontual, é diária. Já dizia a própria Marsha P. Johnson:

"A história não é algo que você olha para trás e diz que era inevitável, acontece porque as pessoas tomam decisões que às vezes são muito impulsivas e do momento, mas esses momentos são realidades cumulativas."