• Kael Avila

Entre o anarquismo e a bissexualidade

Atualizado: Mai 15

[contém temas pesados como estupro e violência, contém imagens com seminudez e armas]


Bandeira negra com as cores da bissexualidade feita por OmicronPhi

Me identifiquei como anarquista desde muito cedo, mesmo antes de saber o que realmente significava o termo. Foi quando vi meus primos e primas sendo agredidos ou ao menos negligenciados pela polícia e pelo Estado. Alguns presos, sem justificativa além da cor da pele e do status econômico. Ou quando a polícia barrava as festas LGBT que eu participava com bombas e assédio físico e moral. Deve ter sido quando fui agredido pela polícia, junto aos meus amigos, em um bar de cultura LGBT e preta da minha cidade simplesmente por estar lá, sem maiores motivos. Aliás, a polícia realmente foi uma grande questão. Quando mais soube sobre as violências sofridas pelo meu pai, quando foi preso, e as violências sofridas pelo meu avô, que não tinha nada a ver com a situação. É literalmente o resultado de dar poder e autoridade para uma instituição tão problemática, que nem ao menos consegue cuidar do próprio nariz sujo de branco.


Talvez a consciência em si tenha surgido nas escolas religiosas que fui aluno, quando questionava a imposição religiosa e autoritária dos professores. Agradeço enormemente à uma escola religiosa específica por me fazer questionarem frente às injustiças. Foi na própria escola, com os próprios professores e pastores, que comecei meus primeiros confrontos. Mas foi mais ou menos em 2017 que realmente comecei a entender e organizar tudo mentalmente. Conheci o movimento anarquista junto com o movimento bissexual. Para mim, ambos estão conectados de uma forma muito profunda.


Anarquismo é, em suma, uma utopia. Não que isso seja inerentemente ruim. Todos os modelos socioeconômicos que almejam alguma mudança são utópicos. Paulo Freire, que apesar de nunca dizer com todas as letras, tinha uma ideia de autoridade e poder muito semelhante à de outros autores anarquistas, dizia que a utopia é a esperança. Era uma “ferramenta fundamental para inspirar e orientar os educadores que buscam superar as contradições de um sistema que nega cada vez mais a ‘vocação ontológica’ de homens e mulheres que buscam em sua espontaneidade a busca pelo ‘ser mais’” (PEROZA). A superação que o anarquismo busca é de um sistema construído em opressões, desigualdades, que impedem a construção de uma população liberta, igual, partida de apoio mútuo (COÊLHO). Essa autoridade faz parte de um sistema capitalista construído por uma força estatal e uma força capital, ambos essenciais na proteção e manutenção do próprio sistema.


Aqui, o anarquismo se diverge de outros movimentos anticapitalistas. Mesmo com, por exemplo, o movimento comunista também criticar a violência do Estado e desejar o fim da propriedade privada, a estratégia é diferente. O anarquismo não acredita em reforma, não acredita que se precisa de um sistema intermediário entre a opressão e a liberdade. O anarquismo defende a liberdade agora, hoje. Para isso, se luta contra o poder do Estado genocida e do Capital explorativo ao mesmo tempo, sem fortalecer nenhum dos dois.


É interessante notar, para não haver maiores confusões, que até entre os mais árduos dos neoliberais, capitalistas, a existência do Estado é importante. No caso dos neoliberais ou os ditos “anarco-capitalistas” (rótulo completamente avulso com o anarquismo de fato) discute-se sobre Estado-Mínimo, mas ainda sim Estado.


Se não há uma instituição definitiva para ditar que a terra de Fulano é de Fulano, a terra de Fulano nunca será de Fulano. Não quero criar um monopólio da violência, quero acabar com a violência de uma vez por todas. A questão aqui é: não há capitalismo sem Estado, a concentração de poder é própria desse sistema e se dá nas instituições. A função do Estado se dá em proteger a propriedade privada, sem ele a protegendo (seja por leis, pela força policial, pela educação), não há propriedade que não seja decidida mutuamente.


E tudo isso se relaciona com o movimento LGBT e especialmente bissexual e trans. Nos primórdios do movimento, no final dos anos 60, a revolta que revolucionou o movimento de liberação transviada (ou queer) foi uma revolta contra o Estado, mais especificamente contra a violência policial. A insurreição dos movimentos LGBT não se deu nas urnas, se deu na rua, em socos e pedras jogadas por corpos transviados que fizeram os policiais se esconderem de medo dentro do bar controlado pela Máfia.

Marsha P. Johnson (esquerda) e Sylvia Rivera (direita)

Um dos primeiros movimentos criados na era pós-revolta foi a STAR (Ação Revolucionária das Travestis de Rua), formada por Marsha P. Johnson e pela Sylvia Rivera. O interessante uso de palavras aí, desde “ação” até “revolucionária” já coloca uma posição anárquica muito intima e reveladora, como resposta direta à opressão e uma forma de ajudar e cooperar entre si. Ação: de ação direta, ação já. Se há alguma opressão a combater, alguma ajuda disponível, pois se faça agora. É importante um pensamento revolucionário à nossa comunidade, que determine e exija mudanças imediatas, pois o genocídio e a opressão são presentes hoje e agora.


A própria Sylvia tinha ideais muito libertárias. Ela lutava contra a opressão sofrida pelas pessoas trans nas ruas desde muito cedo. Isso também refletia na sua própria visão de si, lutando pela autonomia de determinar o próprio gênero e sexualidade, se recusando a ser colocada em qualquer caixa pré-determinada.


Em uma ocasião, onde tentaram a rotular de lésbica por estar em um relacionamento com uma mulher, ela respondeu: “Eu sou Sylvia Rivera. Ray Rivera que saiu de casa aos dez para se tornar Sylvia. Essa é quem eu sou”. Quando lhe perguntavam sobre o seu gênero ela dizia ser um homem gay; uma mulher gay; uma drag queen; uma street queen; e de novo um homem gay, tudo ao mesmo tempo. Segundo ela, nenhuma dessas identidades se anulam, muito pelo contrário. Sylvia se via fora dos sistemas binários, tanto o de gênero (homem-mulher), como sexualidade (homo-hetero).


Stephen Donaldson, um dos pioneiros do movimento bissexual dos anos 70 teve seus motivos para adotar o pseudônimo "Donny the Punk". Além de sua aproximação com a cultura anarcopunk estadunidense, o nome foi adotado depois de uma experiência de abuso e raiva que passou em seu período na prisão.


Donny, junto com Brenda Howard, foram essenciais na criação dos primeiros grupos e movimentações bissexuais dos anos 70. Os dois, junto com o ativista gay L. Craig Schoonmaker, popularizaram a palavra "pride" (orgulho), que hoje é usado como símbolo das vivências LGBT e nomeia nossas paradas e gritos.


Depois de quase dois anos como marinheiro, fui expulso por "envolvimento homossexual", uma acusação que recebi pouco tempo depois de me tornar um quacre pacifista. Amargurado com a segunda expulsão homofóbica, que me privou da identidade que eu mais amava do que qualquer outra (a de marinheiro), e como um bissexual que não se sente mais confortável no movimento de libertação gay, me vi em junho de 1972 participando do evento anual chamado Conferência Geral de Amigos (quacres). Organizei um workshop sobre bissexualidade e fiquei surpreso ao encontrar 130 outros quacres, um em cada dez membros da conferência, lotando cinco salões e um auditório por dois dias de discussões baseadas mais nas experiências que em teorias abstratas. Finalmente, fui cercado por amigos bissexuais, considerando seriamente o tópico da bissexualidade. Isso me levou ao ativismo.


Entretanto, o ativismo de Donny não se limitava apenas no movimento bissexual. Nos anos 80 ele foi uma parte essencial da criação do POSRIP (Pessoas organizadas lutando para parar o estupro de encarcerados). Ele fez parte dos grupos punk, skinhead antiracistas, publicava zines como o Maximumrocknroll e o Flipside. Ele morreu em 1996, vítima da AIDS, que assolou a comunidade LGBT e é marcado na identidade bissexual até hoje.


É importante colocar a experiência prisional como uma discussão da bissexualidade. Eu estou particularmente cansado nas piadas sobre os abusos e estupros sofridos por homens nas prisões, principalmente aqueles que diminuem o sofrimento e medo deles. Apesar das medidas de criminalização da LGBTfobia seja algo comemorado por muitos, me preocupa. Não confio no aparelho estatal enquanto vítima da bifobia. Enquanto tivermos um sistema prisional punitivista, que incentiva práticas de abuso sexual, em especial de homens afeminados e mulheres trans, não o confio em me resolver situação alguma. A bifobia é institucional, a criminalização não irá magicamente dissolver a estrutura. No texto "Surgimento 'rápido' e 'tardio' da disforia de gênero é a nova pseudo-homossexualidade", escrito por Jessica Inanna com comentários de Beatriz Pagliarini Bagagli dentro do site Transfeminismo, é colocado que:


Por exemplo, quando um homem era acusado de “sodomia”, ele passaria por um exame médico para verificar se ele tinha comportamento “afeminado”, se raspava os pelos pubianos, se tinha tendência à “histeria”, etc. Se fosse o caso, ele seria inocentado. Mas se o cara tinha sido “hétero” a vida toda e, “do nada”, saiu com um cara e gostou da coisa – condenado. (Aliás, isso dá uma pista de onde surgiu a bifobia).


Voltando ao anarcopunk, vemos onde as ligações das políticas de libertação sexual e anarquistas podem se encontrar na prática, estética, estilo de vida e filosofia. O queercore, movimento de punk transviado dos anos 80, é um exemplo claro da manifestação artística. Bandas como The Dicks, Limp Wrist e Pansy Division colocam políticas claras, por mais que geralmente o tema se aproxima à experiências homossexuais masculinas. Segundo o site O Caralho do Rock, sobre a influência do queercore no Brasil:


Por aqui, poucas e boas iniciativas. Nerds Attack!, Dominatrix, Textículos de Mary (que conseguiu alguma notoriedade na grande mídia) e a Teu Pai Já Sabe? são os destaques. Está última do curitibano Mamá, mentor de várias iniciativas queer e tido por alguns como o pioneiro, ou ao menos o principal nome, do Queercore no Brasil.


O documentário "Queercore: How to Punk a Revolution", de 2017, trás um histórico bem completo do movimento no exterior. A ideia do anarcopunk em geral já abrange uma libertação sexual, tanto na época que o movimento começou, como também ao pensar sobre toda a cosmovisão política, sobre evitar ser rotulado pela sociedade, sobre ter autonomia e liberdade no agora, aplicando a teoria de um anarquismo insurgente.


Limp Wrist

Na série de textos produzidos pela Vice, buscando traçar a história do movimento anarcopunk no Brasil, uma das entrevistadas disse:


O visual sempre foi um importante modo de expressão dos anarcopunks. No começo, a gente achava que os caras tinham parado lá no punk rock, muito conservadores na estética. Pra gente o lance do punk era transgredir, então tínhamos que fazer um visual que representasse isso. Aquela coisa de queer, por exemplo, já fazia parte. Uns meninos já usavam saia, legging… Os outros punks ficavam chocados. Até virou lenda urbana a história de que o anarcopunk era um movimento gay.


A matéria coloca que, mesmo parecendo óbvio a ideia da relação entre a libertação do anarcopunk com a política LGBT, ainda haviam casos de agressão física e moral dentro do movimento. Uma das pessoas entrevistadas até relata que um punk havia se irritado com um zine transviado e depois de um tempo ele já estava dentro de movimentos supremacistas brancos.


Era comum os anarcopunks serem chamados de "viadinhos" ou "anarcobichas" pelo pessoal das gangues. E ainda tinha toda a questão da suposta "união" entre punks e skins (Carecas do Brasil e do Subúrbio, na maioria). Algo que os anarcos não aceitavam de jeito nenhum. Os anos 80 deixaram um rastro de violência e morte dentro do punk. Muitas tretas, violência, atitudes destrutivas e até mesmo fascistas. E o anarcopunk queria falar de outras coisas, de lutar contra o Estado, contra o racismo, a homofobia, o machismo, sexismo, capitalismo; queria se organizar de forma autônoma, livre e igualitária e queria combater o fascismo.


'Liberdade, igualdade, amor, anarquia'. Praça Ramos, 1991. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Quando falamos de anarquismo transviado, nos deparamos com um termo descrito como "anarcoqueer". Ela é relativamente fraca no Brasil, sem muito espaço dentro dos espaços de ativismo e militância anarquista. Quando se pesquisa sobre ela, nos deparamos com indicações de ativistas anarquistas que também são LGBT. Isso não define um movimento em si, a maioria desses autores não criaram conteúdo especificamente sobre a relação entre o movimento transviado e o anarquista, às vezes parece apenas uma aproximação por segregação. Se diz também sobre o Michel Foucault como um inspirador do movimento, o que não seria necessariamente mentira, mas é difícil citar qualquer movimento mais atual que seja contra o controle social que não tenha o Foucault como base.


O movimento é forte em alguns países. Em Berlim e outras cidades da Europa Oriental, por exemplo, conseguimos ver organizações e uniões anarcoqueer em operação atualmente. Mas talvez o movimento anarcoqueer mais presente e importante de citar, seja o Exército da Insurreição e Libertação Transviada (The Queer Insurrection and Liberation Army). É uma subunidade da Forças Guerrilheiras Internacionais e Revolucionárias do Povo, guerrilheiros anarquistas que partilham da luta contra o Estado Islâmico. Abaixo, se encontra uma imagem deles que se tornou viral na internet. Na imagem abaixo se diz "essas bixas matam fascistas".


Quando falamos de movimentos anarcoqueer no Brasil, a discussão é bem delicada. Nem ao menos a palavra "queer" carrega o mesmo peso simbólico que na gringa. Para nós, muitas vezes, se torna um termo que só faz sentido dentro da academia. Palavras como "anarcobixa" ou "anarquismo transviado" parecem ter um simbolismo muito mais próximo e contextualizado. Mas isso também é outra discussão.


No Brasil, o grupo SOMOS, o primeiro coletivo gay e lésbico, se divergiu muito do grupo que organizou o Lampião da Esquina, que teve sua edição zero em 1978. Segundo o jornalista Pedro duArte:


Lampião professava valores similares que os demais militantes homossexuais brasileiros. Entre eles, estava a negação das relações comerciais intrínsecas ao consumismo, assim como na rejeição aos “esquemas prontos” da esquerda tradicional.


Havia também o apoio ao movimento das trabalhadoras do sexo e a valorização do indivíduo como indivíduo. O autor ainda considera o Lampião como o marco inaugural do movimento LGBT no Brasil, assim como Stonewall foi nos EUA.


Com o grupo SOMOS recém-formado, se discutiu muito sobre a organização do movimento LGBT no Brasil. Isso fez com que o Lampião se radicalizasse cada vez mais, se distanciando das relações entre a nossa comunidade e o Estado como solução às opressões. No final, o jornal foi se enfraquecendo cada vez mais, até que teve sua última edição em 1981.


O SOMOS, porventura, começou também com uma aproximação muito grande de uma ideia de organização e filosofia anarquista. Diz-se sobre autonomia dos corpos transviados, a autogestão de si e da própria sexualidade. Isso os afastava um pouco dos modelos de organização da esquerda partidária da época. O SOMOS contestava a ideia dos movimentos de esquerda partidária de falarem “em nome do povo”, como se o povo não pudesse falar por si. Segundo Duarte, “com a chegada de mais integrantes o grupo precisou se reestruturar. De uma estrutura rigorosamente horizontalizada onde todos tinham o direito de serem ouvidos com a sua própria voz”.


Vale ressaltar, quanto a curiosidade, que o Lampião da Esquina já foi espaço de absurdos quanto ao tema da bissexualidade. Dá para se dizer que as discussões do jornal eram sobre as vivências dos homens gays, salvo quando o tema se virava às mulheres trans e travestis e às mulheres lésbicas. Também não há registro algum de grupos ou ao menos discussões quanto à comunidade bissexual dentro do Grupo SOMOS, mesmo sendo conhecido pelo número enorme de grupos internos. É importante frisar isso porque ao mesmo tempo que fazemos parte da comunidade LGBT, muitas vezes estamos presentes nos discursos por mera formalidade e citação. A bissexualidade é, quase nunca, ditada por uma pessoa bissexual, tendo seus sentimentos e identidade validados.

Protesto do Grupo SOMOS

Em meio à crise da AIDS, e ainda muito escondido até entre os pesquisadores, aconteceu a Operação Tarântula. Inspirado em uma lei contra a “vadiagem”, a operação policial matava travestis a tiros nos anos 80. O acontecimento é registrado no documentário “Temporada de Caça”, de Rita Moreira.


A marginalização, aqui em especial da comunidade trans e travesti, continua e continua forte. Por essa marginalização, o Brasil tem o título de país que mais mata LGBTs de todo o mundo. O documentário é construído também por entrevistas com pessoas concordando com a caça, revelando uma transfobia primordial da nossa sociedade.


Em uma parte do documentário, é perguntada à repórter Sandra como estava o andamento das entrevistas. Ela respondeu falando: “Meu deus, qualquer coisa. Ninguém quer saber de nada, ninguém sabe nada, ninguém se pergunta o porquê. Parecem um bando de robô”.


Educação bancária é um termo defendido por Paulo Freire para falar sobre a educação como um preenchimento de dados de uma pessoa para outra, como se tivéssemos programando um robô. É a visão do educando (aquele que está sendo educado, estudante) como um “aluno”, no sentido de não ter luz, a precisar ser iluminado pelo professor. Com isso, criamos como sociedade pessoas dóceis para o poder vigente e de fácil manipulação, que não tem incentivos para revelarem ou discutirem sua critica à sociedade, onde não há conhecimento de ação para combater as injustiças. Essa mesma educação que coloca professores dentro de um pedestal de autoridade da sala de aula, ignora a autonomia e os conhecimentos do educando. Paulo Freire defendia uma educação conjunta.


Quando falamos de educação, por exemplo, estamos falando de uma educação que valoriza conceitos e saberes da classe dominante. Quando passamos isso para a discussão LGBT, estamos falando da valorização da heteronormatividade, da cisgeneridade e dos modelos de relacionamentos que se assemelham aos heterossexuais e valorizem a instituição familiar como base moral e social, como a monogamia. Estamos falando, também, do monossexismo. Segundo Ariel Silva em seu texto “Materializando as identidades não-binárias”:


Quem possui poder, escreve o que será contado. É essa a origem da dominação, a autorização e legitimação para que se fale sobre (e pelo) outro, ali desautorizado. Não tardará então para que esse sujeito seja repetitivo, cansativo de se enxergar: a narrativa rapidamente assume um tom positivista, cisheterossexual, branco e masculino, herança do iluminismo (lembrando o iluminismo enquanto a revolução que guilhotinou Olympe de Gouges ao apresentar sua “Declaração dos direitos da mulher e cidadã” em contraponto à mesma declaração dos direitos do homem e cidadão naquele período), compasso atual do que é o rumo a ser tomado na academia.


Vivemos uma sociedade de valorização de todos esses aspectos. Logo na escola primária já se tem divisão rigorosa entre meninos e meninas, sem nem ao menos os corpos presentes terem capacidade de entender o próprio gênero em sua complexidade, para enfim ter autonomia de determinar um deles (ou nenhum deles) para si. É imposto pela nossa educação, é imposto pelas normas e burocracias estatais como nas certidões de nascimento, é imposto também pelo poder capital, muito preocupado em criar produtos infantis diferenciando os supostos sexos por, por exemplo, cores sem nem ao menos os bebês terem capacidade de ver e compreender.


Tudo isso aproxima o movimento LGBT de uma ação anárquica e anarquista. Perceber que a violência do Estado e do Capital é real, e determinar a possibilidade revolucionária, de ação direta, de luta para acabar com a concentração de poder e horizontalizar todas as relações são ideias tanto quanto válidas que aproximam a filosofia anarquista intrinsecamente na filosofia transviada.


Dito isso, me solidarizo com aqueles que fazem sua luta em meio às instituições, dentro das lutas de partidos, que acreditam em reformas do Estado para problemas atuais sofridos pela comunidade LGBT. A questão é que é necessário evidenciar que a luta também é possível de maneira direta, sem associação partidária, com intenção revolucionária. A luta LGBT é, também, uma luta anarquista, e vice-versa. Segundo o livro “História do Anarquismo”, de autoria anônima e tradução de Plínio Coêlho:


As opressões de todos os tipos (política, econômica, social, militar, religiosa, sexual...), lixeira! As desigualdades de todos os tipos (tomam as mesmas e recomeçam), lixeira! As explorações de todos os tipos (retomam as mesmas e recomeçam), lixeira! Os patrões, os governos, os policiais, os curas, os militares, os fundos de pensão, os especuladores, os banqueiros, as multinacionais, os capitalistas, os arrivistas da burocracia, os engajados voluntários de todos os pequenos poderes, os doutores Strangelove da destruição da terra, os acadêmicos de merda da ópera-bufa, os pilantras do reformismo, os doentes pelo poder, os abutres da propriedade privada e da herança, os negociantes de tudo e de nadam os últimos imbecis do direito do sangue e da lei do mais forte... lixeira! Expropriação e demissão sem indenização! Tudo e imediatamente! Partilha das riquezas, não da miséria! Autogestão generalizada, aqui e agora!


Além de LGBT, a luta anarquista também é bissexual. A bifobia é uma forma de opressão específica à identidade bissexual. Ela pode ocorrer dentro ou fora da comunidade LGBT como um todo e por isso merece uma visão independente e separada.


Segundo Ariel, as “identidades são aprisionadas em personas socialmente sufocadas, que a todo tempo tem de lutar para que não seja percebida (e condenada) a insurgência de se existir”. A questão do preconceito bissexual se aproxima muito do preconceito monogâmico, à ideia da sexualidade precisar ser pura e higiênica, destinada à apenas uma pessoa/gênero.


Se reconhecer como bissexual é literalmente dizer que sua sexualidade é além de apenas um gênero, o tempo todo, independente do seu parceiro atual. É reconhecer que a atração por pessoas pode ser um traço que extrapola qualquer relação monogâmica. Por causa disso que se tem a ideia de que, quando uma pessoa bissexual namora uma pessoa do mesmo gênero, ela haveria “se tornado gay/lésbica”. O mesmo ocorrendo ao contrário, quando falam que a pessoa “voltou a ser hetero”.


A bissexualidade é um embate direto à ideia monogâmica, consequentemente é um embate direto à instituição da Família, que é a base dos valores morais da nossa sociedade. A Família essa que denomina os papéis sociais, e consequentemente os papéis de dominação. Bakunin, considerado por muitos o pai do anarquismo, escreveu uma carta chamada "A mulher, o matrimônio e a família", no qual diz:


A expressão "igualdade social com os homens" implica que, juntamente com a liberdade, pedimos iguais direitos e deveres para o homem e para a mulher, ou seja, o nivelamento dos direitos das mulheres, tanto político como econômico e social, com os do homem, em consequência, desejamos a abolição da lei familiar e matrimonial, e da lei eclesiástica tanto quanto a civil, indissoluvelmente ligadas ao direito de herança. Abolição da família jurídica. Ao aceitar o programa revolucionário anarquista - único que oferece, ao nosso entender, as condições para a emancipação real e completa do povo comum - e convencidos de que a existência do Estado, sob qualquer forma, é incompatível com a liberdade do proletariado e impede a união internacional fraterna das nações, expressamos a necessidade de abolição de todos os Estados. A abolição dos Estados e do direito jurídico implicará necessariamente a abolição da propriedade individual hereditária e da família jurídica com base nesta propriedade, porque nenhuma dessas instituições suporta a justiça humana.


A Família se forma também na própria base moderna das nossas concepções de gênero. A mulher é a mãe, passiva e emocional, pois esse é o papel dela dentro da Família. O homem é trabalhador, rígido e frio pois esse é seu papel na Família. Ela é branca, heterossexual e cristã. Colocar a bissexualidade como uma ferramenta de crítica da constituição familiar, pelo seu atrelamento fundamental à não-monogamia, é colocar a bissexualidade contra as estruturas de poder que formam nossa sociedade.


É importante frisar que quando falo de Família, eu não falo da sua família. Digo Família enquanto instituição, enquanto norma social, contrato de relações de poder. Isso não tem nada relacionado com o fato de você amar ou não sua mãe, tio, filhos, marido ou pai. A discussão é outra.


A bifobia se apresenta em dois fatores contraditórios. Um deles é o ato de colocar a bissexualidade em um lugar pecaminoso, sujo, de perversão mental e de traição. O outro é simplesmente negar a sua existência, e negar a vivência das pessoas bissexuais. Ambos fatores podem ter relação direta com o medo da bissexualidade quebrar o contrato institucional da Família, aos valores morais de fidelidade, controle patriarcal, monogamia compulsória e heterossexualidade como base da nossa sociedade capitalista, racista e classista.


Essas são relações teóricas que validam uma postura e ótica anarquista dentro dos movimento sociais de visibilidade bi, mas há argumentos de que isso já acontece na prática. Apesar de muitos coletivos LGBT se colocarem dentro de sistemas de organização vertical, hierarquizado, não é algo presente dentro do movimento bissexual como um todo. Eu nunca consegui ver qualquer grupo ou movimentação bissexual com hierarquias, burocracia. Além disso, o próprio movimento é cheio de ações diretas (pois precisava ser).


Se olharmos para o movimento de São Carlos, iremos ver ativistas, em geral anarquistas, se organizando de maneira direta, horizontal, cooperativa e criando eventos sobre bissexualidade anualmente. Eventos esses que se espalham por toda a cidade e participam quem assim desejar.

O movimento de São Carlos não se alia a nenhum partido ou corrente partidária, se valoriza na autonomia dos ativistas e na construção dos eventos por ajuda mútua. Nem ao menos é um coletivo, é uma união autogestionada e orgânica. Todos esses valores são anarquistas, e isso merece ser notado.


A ativista Anis Rosa em uma galeria de artistas bissexuais organizada pelo movimento bissexual de São Carlos.

No Bi-Sides, por exemplo, conseguimos ver uma organização interna horizontal, apartidária, que preza a autonomia, identidade e integridade dos membros. Foi uma das coisas que, apesar de me aproximar muito com uma ideia egoísta de ação individual no ativismo, me fez estar confortável e segura dentro desse espaço.


Na organização da Frente Bissexual Brasileira, se apresentam os coletivos bissexuais com o mesmo pé de importância e poder. Durante a organização do Festival Bi+, a organização horizontal e autônoma se deu presente na construção de GTs que teriam sua própria forma de organização em comunicação frequente entre si. Partem de uma organização, acima de tudo, igualitária.


Quando olhamos grandes figuras da militância bissexual ou de uma filosofia de sexualidade livre como Shiri Eisner (escritora do Bi: Notes for a Bisexual Revolution), Paul Preciado (escritor do manifesto contrassexual) ou até a própria Judith Butler (escritora do Problemas de Gênero), conseguimos identificar flertes, bases ou até mesmo afirmações claras de posicionamentos anarquistas. Mesmo assim, os grupos anarquistas, em especial aqueles com um público restritamente branco, de classe média, universitário e cis-heterossexual, a ideia de uma vertente transviada é assustadora ou motivo de deboche.


Somos chamados de pós-modernos (como se isso ao menos fosse um xingamento) por mostrar conhecimentos que estão aí faz tempo, vindo de vivências que estão presentes desde os primórdios da nossa sociedade capitalista. Quem está no poder vai fazer de tudo para negligenciar quem é desempoderado, tirar a voz, tirar a autonomia. A violência de gênero e sexualidade não se limita só entre os fascistas de direita.


Aliás, isso é expressado em próprios escritos anarquistas. Ao vermos a trajetória do militante francês Daniel Guérin, autor de Anarchism: From Theory to Practice e No Gods No Masters, isso se torna mais claro. Ele se assumiu bissexual em 1965 e descreve os fortes preconceitos da esquerda em geral, mas principalmente dos marxistas que compartilhavam a luta com ele. Guérin disse dez anos depois de se assumir: "não fazem muitos anos, declarar-se revolucionário e confessar ser homossexual era incompatível". Depois de sair do armário, ele foi expulso da esquerda e seus escritos foram escondidos e censurados. Assumir bissexual fez parte importante na sua identificação como anarquista, quando abandonou sua leitura marxista-leninista e se debruçou em uma abordagem anarco-individualista, inspirado em Max Stirner, até chegar uma síntese das suas experiências em uma abordagem plataformista.


Vale anotar e procurar sobre esses nomes. Emma Goldman, anarquista lituana, importante na discussão do anarco-feminismo, por ter influenciado diretamente o surgimento do anarquismo na América do Norte e pelos seus escritos como o "O Indivíduo, a sociedade e o Estado", ficou também conhecida por defender os direitos LGBT em meio à uma comunidade ainda hostil. Lucía Sánchez Saornil, uma das fundadoras da Mujeres Libres na Espanha. A fundação que chegou a ter 30 mil membros na primeira metade do século XX. Paul Goodman, considerado um filósofo anarquista da "pós-esquerda", teve sua vida bem influenciada pela sua bissexualidade e vida dentro da contracultura estadunidense. Ele descreve suas experiências tardias com outros homens no texto "Being Queer" (Sendo Transviado), que foi um forte em influente aos movimentos LGBT que viriam depois de Stonewall.


Voltando ao Stirner, quando pensamos na trajetória do anarquista alemão John Henry Mackay, responsável por popularizar as ideias de Stirner fora da Alemanha, vemos uma aproximação ainda maior da libertação sexual com a cosmovisão anarco-individualista. Veja: Mackay, dentro do pseudônimo Saggita, escrevia contos e obras sobre o "submundo sexual de Berlim".


John Henry Mackay, junto com outros grandes autores como Benedict Friedlaender, Hanns Heinz Ewers, Erich Mühsam, Kurt Hiller e Ernst Burchard, criaram e escreveram a primeira revista de e para homens homoafetivos conhecida na história, a Der Eigene. Esse nome traduzido é "o próprio" e faz referência ao livro "Único e Sua Propriedade", de Max Stirner, que é a principal referência do anarco-individualismo.

Der Eigene - Revista para amizade e liberdade, um caderno para a cultura masculina

Na realidade, Stirner é considerado precursor do próprio anarquismo em si, além de ser importante para as discussões niilistas, existencialistas, pós-modernistas e psicanalíticas que viriam depois. É bem impossível ignorar todas essas relações que o anarquismo, em especial as vertentes inspiradas por Stirner, tem com a cultura e pensamento transviado e bissexual. São relações muito fortes que atravessam a própria vivência dos ativistas, que influenciam diretamente na visão deles do mundo. Aliás, peço para não ter medo quanto ao "individualismo", que nomeia essa vertente anarquista. Não se trata de um individualismo como discutido no neoliberalismo.


Falando em neoliberalismo, é importante falar sobre a apropriação e esvaziamento da cultura e política LGBT pelo capitalismo, por ideias partidas de um pensamento neoliberal, apesar de toda essa origem em filosofias e práticas anticapitalistas que coloquei no texto. Por mais que muitas vezes vemos o discurso do "movimento LGBT ser neoliberal" como uma maneira de justificar o preconceito dentro da esquerda, há sinais bem alertantes dessa aproximação. De antemão, é curioso ver como a afirmação às vezes soa como um espantalho. Enquanto a esquerda partidária coloca o movimento como neoliberal, a direita partidária o coloca como socialista. Ás vezes o problema desse discurso se encontra principalmente no nesse pensamento "nós e os outros", "minhas coisas e as coisas do mundo".


Enfim, é interessante entender que o nosso movimento é plural e é construído por pessoas que vão ter visões sociopolíticas distintas. Dito isso, acredito ser importante a gente ter uma análise muito crítica e individual para cada caso, e é importante afirmar que a aproximação do movimento LGBT ao neoliberalismo existe, é real, e é preocupante, apesar de ser uma posição que não é influenciada por nós, encaminhada por nós e incentivada por nós . O capitalismo irá favorecer as narrativas dentro da comunidade que o favorece, irá repetir elas até o discurso ser completamente domesticado e esvaziado. É importante afirmar isso para não voltarmos nossa raiva entre si, e sim entender que o problema pode ser maior, mais interconectado. Meu desejo é que a bissexualidade e as políticas do movimento bissexual não sejam discursos engolidos e regurgitados pelo capitalismo, e é importante manter uma consciência em alerta pra isso.


Eu acredito em um movimento transviado, bissexual, que valorize a individualidade e a autonomia dos corpos, e também acredito em um movimento anarquista que consiga respeitar essa integridade e caminhar de maneira cooperativa e dialógica. Aliás, uma das maiores lutas bissexuais é justamente essa. Citando o Manifesto Bissexual de 1999, “nós estamos cansados de ser analisados, definidos e representados por pessoas além de nós mesmos, ou pior ainda, de não sermos considerados de todo”. A luta é pela autonomia, pois então a luta deverá partir de princípios autônomos, de ajuda mútua e solidariedade. Se taparem nossas bocas, vamos gritar, e não pedir permissão para falar.


Não quero que a bifobia acabe daqui a 40 anos, com um voto no Senado e uma assinatura do presidente. Sofro de ansiedade generalizada e é possível que eu nem esteja vivo. Muito se comemorou a criminalização da homofobia, mas eu não confio no corpo policial para o acionar quando estiver sendo assediado ou violentado pela minha sexualidade. Vou lutar para a bifobia acabar hoje. Minha luta é imediata e insurrecional, é cooperativa e horizontal, autônoma e independente, baseada em uma educação popular e livre, não-escolarizada. É contra os capitalistas que nos segregam, nos isolam, nos deixam sem moradia e dignidade. É contra a instituição religiosa que nos colocam como imorais, impuros, que nos caçam na rua, que destroem nossa humanidade e invalidam nossas experiências, que nos isolam e nos afastam das nossas próprias crenças religiosas. É contra o Estado que nos prende, nos humilha, nos coloca em manicômios, nos nega assistência até nas nossas situações mais vulneráveis, nos mata e nos impede de atuar nas escolas. A minha (e nossa) luta é, no final, é anarquista, é transviada, é anarcobixa.


Quero juntar bissexualidade com intersecionalidade e política radical. Vejo isso como uma poção efervescente que, com a junção desses componentes, criará uma explosão de fogo, luz e gás, queimando e explodindo em todas as direções. É essa explosão que quero criar, esse espasmo de criatividade, poder, e algo de desconhecido - tornar a bissexualidade um agente do caos para que possamos usá-la para destruir a opressão e criar algo novo (Shiri Eisner)


Tradução: Extermine o Monossexismo. Imagem de Bidicke.

Referência bibliográfica:


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