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Se sentir bissexual o suficiente?

Atualizado: Mai 29

Há algum tempo eu venho pensando sobre a origem desse sentimento que a maioria de nós bissexual já sentiu, que é o não se sentir bissexual o suficiente, ou bissexual de verdade, o pensamento momentâneo de “será que eu realmente posso me identificar como bissexual?” Eu queria entender melhor por que tantos de nós - se não todos - nos sentimos assim em algum momento, e quais são as consequências que isso tem para a nossa comunidade.


Para entender isso melhor, precisamos pensar que o preconceito contra bissexuais, a bifobia, é pautado pelo monossexismo, uma crença estruturante da sociedade que pressupõe que a atração existe e ela é direcionada unicamente a um gênero, logo você só pode ser hetero ou homossexual. Claro que a heteronormatividade também está aí e é extremamente marcante no decorrer da vida de todos nós, independentemente da sexualidade. Contudo, se você é bissexual, a chance do monossexismo afetar a sua vida constantemente é de 100%.


Isso aparece por exemplo quando um monossexual pergunta a um bissexual “mas qual a sua preferência ?”, porque o que eu entendo dessa pergunta não é que a pessoa vai aceitar a bissexualidade independentemente de preferências, o que deveria acontecer, mas que esse monossexual está tentando entender a sexualidade monodissidentes a partir das próprias lentes e percepções, isso é, tentando encaixar esse bi em alguma das sexualidades que fazem sentido para ele – a hetero ou a homo. Dessa forma, para essas pessoas, se você tem preferência, a sua bissexualidade é automaticamente invalidada.


Várias das formas como a bissexualidade é apagada ou invisibilizada acontecem nesse sentido, quando tentam encaixar uma sexualidade que se atrai por mais de um gênero nas possibilidades monossexistas. Isso ocorre, por exemplo, quando dizem que a cantora Ludmilla é lésbica, sendo que a mesma já reafirmou várias vezes que é bissexual, mas o que parece é que para monossexuais, sejam eles membros ou não da comunidade LGBTQIA+, não importa como nós nos identificamos, como nós nos vemos e nossa história, o que importa é a nossa sexualidade fazer sentido para com as lentes que eles tem de nós.


E esse é o ponto principal, a ideia de que bissexuais tem que se atrair igualmente pelos gêneros, a famosa proporção 50% / 50% (o que inclusive exclui a ideia de que a bissexualidade não é binária, muitas vezes porque essa compreensão também está para além do monossexismo “como assim existem mais de dois gêneros”, mas isso fica para um texto futuro) ou se não este bissexual não é tão bissexual assim e deveria se assumir como ele realmente é – hetero ou homo – vem deles, os próprios heteros e homos. Não de nós, monodissidentes.


Uma das consequências de tudo isso é que muitas pessoas monodissidentes que estão se descobrindo e saindo aos poucos de seus muitos armários acabam por ter uma dificuldade a mais no processo de conseguir se compreender bissexual, muitas vezes por medo de ofender sexualidades não hetero (dissidentes) que são vistas como mais consolidadas, como as lésbicas e os gays. Existe todo um processo de bloqueio da entrada de novos LGBTQIA+ para dentro da comunidade, que desejam ver se aquela pessoa de fato é LGBTQIA+ suficiente (o famoso gatekeeping), e se estamos falando sobre o sentimento de não der bi o suficiente, nem me faça começar a falar sobre o “será que sou queer o suficiente para fazer parte da comunidade ?”, porque esse pertencimento é algo que nós monodissidentes raramente teremos sem lutarmos por ele, reafirmando que esse espaço também é nosso.


É claro que isso não quer dizer que ao longo do tempo alguns bissexuais não pegaram essa mesma medida e começaram a tentar confiscar carteirinha dos colegas de comunidade, mas quer dizer que isso é uma reprodução de um preconceito estrutural ao em vez de uma criação própria.


A ideia de se ter uma medida exata, uma tabela de critérios a ser checada para se obter a validação de que se é bissexual, é horrível. E infelizmente está presente em todos os cantos, a ponto de eu, um estereótipo bi, que não tem preferência por nenhum gênero, ainda assim não me sentir bi o suficiente. Acho que o que temos de fazer aqui, é tentar compreender que essa régua não existe. Se você sente atração por mais de um gênero, você é monodissidentes. Se você se identifica como bissexual, não há quem possa tirar isso de você. Isso é independentemente de alguma preferência, pela falta ou muita experiencia, ou então pelo relacionamento no qual você está no momento. Você é valide, eu sou valida, e nós temos que nos fortalecer como comunidade para ninguém mais achar que pode nos fazer duvidar de algo que sabemos que somos.