• Bi-Sides

Parentesco: monossexualidade é uma troca de plágios

Monossexuais vivem a harmonia da inimizade recíproca.


A existência da homossexualidade não ameaça em nada a >> existência << da heterossexualidade e vice versa, (não só, mas) principalmente pelo fato de que eles não fazem parte da vida sexual e romântica um do outro, ao contrário de nós que "nos infiltramos em suas culturas" (construídas por nós, aliás).


É comum ouvir gays e lésbicas dizendo pra héteros: "minhas escolhas não vão afetar em nada as suas, portanto cada um cuida da própria vida".


"Não precisa respeitar, apenas aceitar" chegou a ser slogan de paradas LGBTIA, ou "paradas gays", como muitos preferem chamar.


A identidade de ambos os "lados" (termo que eles mesmos estabelecem) é compatível com a monogamia, a começar pelo princípio cristão de que "deus planeja uma só alma gêmea pra cada pessoa". Mas como "deus age de formas misteriosas" e nossa vida aqui na terra é supostamente uma "missão", uma "provação" pra ir pro reino dos céus, cabe aos humanos o trabalho de encontrar a tal alma gêmea.


Então, no desespero subliminar de agradar ao evangelho, eles passam a crer que gostar exclusivamente de um gênero é na verdade um "faro apurado" pra encontrar o amor de suas vidas. Como se fosse a maneira que deus encontrou pra guiá-los nessa jornada.


Essa exclusividade sexual (vulgo monossexualidade) então seria uma versão celestial daquele sistema de aplicativo de pegação em que você escolhe à dedo quem combina mais com as suas exigências, sempre crendo que suas exigências (padrões) são divinas, naturais. Levando em conta que "natural" no senso cristão significa "pré-estabelecido pelo universo antes mesmo do seu nascimento, algo imutável e fora do seu domínio".


Então, segundo isso, quando monossexuais escolhem à dedo seus parceiros, eles não estão escolhendo de fato, mas sendo "instrumentos do destino", "o corpo que reverbera a vontade do Senhor". Ao menos é assim que eles pensam, tanto que vivem a dizer que nós "escolhemos" tudo no campo romântico e sexual da vida ("deve ser fácil ser bissexual né?"), como se fôssemos desligados à deus e eles não. Nós seríamos uma xerox dos seres humanos que o diabo fez e deu falha na hora de imprimir, e como não somos "guiados por deus", apenas saímos por aí caçando qualquer um pra transar, sem escrúpulos, sem os angelicais critérios que eles têm.


Não é atoa que somos taxados de essencialmente adúlteros/talaricos (novamente termos que tentam justificar as violências da monogamia).


A tramóia da "alma gêmea" traz a premissa de que o propósito sagrado "original" dos seres humanos era amar seus opostos (homens > mulheres).


A citação bíblica mais usada pra gerar violência contra nós é "não se deitará com um homem COMO se deita com uma mulher".


Os gays respondem que não se deitam com mulheres & que não vêem homens como "substitutos" das mulheres, logo o teor comparativo da frase não faz sentido pra eles. As lésbicas respondem o mesmo em relação à gostar de mulheres e não vê-las como "meio-homens".


A igreja diz que ser hétero é o normal porque homens e mulheres são opostos. Homossexuais alegam ser igualmente normais, se baseando no mesmo delírio de que homens e mulheres são opostos.


Eles acham que se você está à procura de uma mulher, logo, você não está querendo nada nadica de nada que um homem tenha à oferecer, e vice versa.


"Que tipo de depravado veria semelhança entre homens e mulheres?" monossexuais perguntam.


A resposta é: nós.


Nós somos as pessoas capazes de praticar os mesmos atos com ambos os gêneros, tornando assim a hombridade e a mulheridade coisas menos especiais do que parecem ser.

Se eu pratico a santidade com o pecador e pratico o pecado com o santo, estou esvaziando o próprio conceito que os define assim.


Escrevemos o desejo certo em linhas tortas (ou vice versa), sendo assim insuficiente para a salvação do inferno.


Outra semelhança entre homossexuais e heterossexuais é que dá pra prever exatamente o gênero, o "tipo de gente" que atrai essas identidades, o que às torna menos perigosas ao patriarcado. Fica muito fácil controlar alguém quando você já sabe à o que se direciona os sentimentos dela. Porque não muda, não flui tanto, não é "experimentativo" demais. É sempre aquela mesmice, então dá pra ir manipulando sem pressa, sem medo desse desejo diminuir ou deixar de existir por um tempo. Diferente de nós que estamos sempre criando novas preferências ou passando por "pausas" libidinosas.


Quando digo nós quero dizer nosso grupo, não eu ou você que está lendo.


Enfim, é só por isso que monossexuais "existem" e nós não. Aprovar a nossa existência é por fim à certeza coletiva (deles) de que as pessoas são o que dizem ser. Um mundo onde o governo confirmasse o conceito de bissexualidade seria um mundo onde nenhum gay lésbica ou hétero estaria à salvo de ser visto como um "nada", um "não identificado", um "processo em andamento" (resumo de como nós somos vistos). Monossexuais são tão aterrorizados com a idéia de ser bi que eles até se esforçam pra acreditar que têm um "radar" mágico que os conecta à outros como eles. O gaydar e a mania hétero de fingir surpresa a cada vez que alguém sai do armário.


Homossexuais e heterossexuais se acham tão diferentes, estão à tempo e hora alegando ser opostos. Mas se ambos dizem que são opostos, ambos pensam igual, seguem a mesma linha de raciocínio sobre sexualidade. Logo, não são tão diferentes.


O próprio conceito de "ser oposto" determina que a existência de um só é o que é graças ao outro, como gerar sombra acendendo uma lanterna, como valorizar a vida apenas por causa da promessa da morte, eticétera.


Bissexuais tem a mania de dizer "tanto faz", "que seja o que vier", enquanto monossexuais se julgam os decididos e confiáveis, apenas porque que não é cobrado deles que "revelem" o seu passado ou garantam que "se firmaram" num gênero de vez.


Imagina se gays tivessem que sair do armário pros seus namorados e lésbicas tivessem que sair do armário pras suas namoradas?


Eles dizem que bifobia "não é material", mas lésbicas não são estupradas por namoradas bissexuais que querem as transformar em "sapatão de verdade" porque "sapatão de verdade é bi, não lésbica". Quem se apropriou do ser-sapatão e tomou isso como totalmente seu foram as lésbicas, não as bissexuais. Elas querem ter a patente de uma identidade inteira e nós é que levamos a fama de "militância identidária".


Gays não são rejeitados pela comunidade de homens bi por "não serem viados o bastante, como bissexuais naturalmente são", apenas o oposto faz sentido nesse mundo.


Homossexuais e heterossexuais são tão idênticos quanto ao tratamento que nos dão que ambos construíram suas próprias ferramentas de "reorientação" sexual pra tentar nos monossexualizar, e de quebra ainda usam essas ferramentas pra ameaçar uns aos outros.

Os héteros, com a chamada "cura-gay", de natureza cristã, vinculada à medicina institucional auto-intitulada "ocidental". Nada mais que uma tortura, um tratamento de choque psicológico.


E os homossexuais, com o assédio corretivo, o estupro corretivo e a reverberação das ideologias da indústria que controla a pornografia.


Os héteros pensam que o deus deles cura aquilo que institucionalmente ainda é uma patologia: bissexualidade e assexualidade. "Basta apenas ir no terapeuta certo e ouvir o pastor certo", eles pensam.


Os homossexuais pensam que toda pessoa bi que corresponde o mínimo flerte é uma caça, um desafio. Há todo um fetiche em arrastar esses "héteros" (como eles nos chamam) pro vale, mas apenas por um momento, pra manter a atmosfera de corrupção, o fetiche do "eu sei do seu segredinho sujo". Muitas vezes a pessoa bi envolvida nunca sequer disse que era hétero, mas gays e lésbicas continuam a pensar "eu sei que você não é hétero", como se isso fosse um tipo de "propriedade-sentimental" super particular que nós "damos" à eles ao nos relacionarmos com os mesmos. Essa sensação de "você podia tá fudido na minha mão" parece ser prazerosa para monossexuais.