• Kaique Oliveira Fontes

O alvo preto e bi - reflexões sobre as violências racistas e bifóbicas no BBB21

Atualizado: Fev 8

Não imaginei que minha primeira publicação no Bi-Sides esse ano seria essa, honestamente falando. Passei esses últimos meses refletindo em que conteúdos trazer, quais temas abordar para que nossas discussões avançassem minimamente. Infelizmente, não vai rolar avanço antes da gente conversar sobre o que vim conversar com vocês hoje.


Escrevo esse texto no lugar de uma pessoa preta e bi que, devido a tudo que rolou, não conseguiu nem dormir direito. Gatilho atrás de gatilho! Ingênuo fui eu de pensar que os ataques estariam apenas direcionados à raça; e aí chegamos na cereja do bolo, nossa companheira de rolê, famosa bifobia.


Vamos dar um pouquinho de contexto à quem não está completamente atualizado na situação, okay?


Big Brother Brasil é um dos, senão o maior reality show da televisão brasileira. Todo ano chega o momento de se alienar um pouco do restante da realidade e focar nos 3 meses de programa onde acompanhamos diversas personalidades diferentes confinadas e vivendo uma dinâmica antes atípica. No começo de 2020 com o surto de Covid-19 e a pandemia em seus primeiros momentos, o BBB surgiu como a válvula de escape perfeita para muitos. Nunca antes na história do programa o telespectador se identificou tanto com a experiência do confinamento, dado que (teoricamente) estávamos todos confinados também devido a pandemia.


A edição do ano passado levantou questões importantes nas discussões sobre machismo, impunidade branca, assédio sexual, assédio moral, racismo e estereótipos. Gostaria de lembrar aqui que, sendo um dos programas de maior audiência da TV Globo, o potencial que o BBB apresenta de mobilizar determinadas pautas é absurdo, pois tira o debate de bolhas específicas da internet e leva o mesmo para dentro da casa de milhares de brasileiros, ainda que sem a devida profundidade ou criticidade.


Junto à discussão de certos assuntos que vinham sendo apresentados na narrativa do reality, nós, telespectadores, sentimos a necessidade de nos ver ainda mais representados na casa mais vigiada do Brasil. A edição de 2020 teve participação de apenas duas pessoas negras (tendo Thelma Assis como vencedora), contando também com participantes bi e assexuais. As expectativas para a edição seguinte eram enormes, com diversos pedidos ao longo do ano por mais diversidade no elenco e, pasmem, nós conseguimos. De duas pessoas negras em 2020, fomos para nove pessoas negras em 2021. Dentre eles, uma lésbica, dois gays e TRÊS (!!!!!) pessoas bissexuais.

Desde os primeiros momentos do programa conseguimos perceber que os debates sobre raça, sexualidade e gênero estavam bastante aflorados. Logo na primeira semana tivemos toda uma situação onde Lumena (uma das participantes negras, lésbica), questiona a intenção dos homens da casa ao se maquiarem e performarem uma caricatura de feminilidade que, segundo a participante, seria análoga ao sofrimento de mulheres trans e travestis. Na primeira festa da edição vimos a primeira grande confusão, onde Lucas (negro, bissexual) demonstrou interesse em Kerline (mulher branca, heterossexual); a partir disso as discussões que se seguiram foram sobre como Lucas havia se sentido preterido por uma mulher branca, que ao brincar com seu desejo, confirmou gatilhos que o participante sentia em relação a se relacionar com pessoas brancas. Este momento é importante para a discussão que estamos construindo nesse texto, pois esse foi o pontapé inicial para um show de horrores que viria a seguir.


Após os acontecimentos da primeira festa, Kerline afirma se sentir manipulada por Lucas ao ser chamada de racista sem entender a problemática que o participante havia trazido para a situação. Junto com isso, os ânimos da casa se afloram até que na segunda festa, Lucas surta e procura confusão com o restante dos participantes. Provocações à Camilla, ofensas à Kerline, posturas machistas e violentas que devem ser levadas em consideração do ponto de vista dos outros participantes, mas que Lucas atribuiu à necessidade de ser ouvido e querer pedir desculpas pelos erros anteriores. A partir desse momento, todos da casa se viram contra Lucas.


Descrevi esses momentos para que pudéssemos falar sobre a percepção do público e dos próprios participantes. A vivência de pessoas pretas no Brasil é marcada por diversas violências, e a partir dos eventos dessa festa, vimos os piores estereótipos serem levantados contra Lucas. Pessoas negras não têm o direito de perder o controle ou de errar, pois a punição e responsabilização que vier a seguir nunca será proporcional ao erro. Alguns dos participantes, inclusive pretos, entenderam a situação de Lucas como uma estratégia midiática. A dor de Lucas e os erros do mesmo foram interpretados como performance, suas atitudes foram estereotipadas como extremamente violentas, insinuaram a partir daquele episódio que poderia ser um problema com drogas. Chegaram a dizer que a melhor opção diante da situação era esconder as facas na casa, pois ninguém sabia o que o “homem preto descontrolado” poderia fazer para ameaçar a segurança de todos. Insinuaram que Lucas seria abusador, que não poderia ser deixado sozinho com Kerline nem mesmo para se desculpar. Nos dias seguintes os ataques pioraram, onde Lucas não podia mais se sentar ao lado dos outros participantes pois era expulso. Precisava pedir autorização para pedir desculpas e sempre tinha a possibilidade negada. Todo e qualquer direito de fala ou defesa tinha sido arrancado de Lucas, por ser o estereótipo fantasioso de homem negro violento e perigoso. As ofensas não só tinham cunho extremamente racista, mas também psicofobico. Sua sanidade e capacidade intelectual foram constantemente diminuídas e postas à prova, de imbecil até retardado. Atribuíram a Lucas o estereótipo da criminalidade, julgaram o erro de Lucas como algo passível de exclusão e linchamento contínuo, chegando até ao abuso psicológico onde o mesmo já não tinha certeza do que fazer, do que falar e de como agir diante dos outros.


Na madrugada do dia 07/02, hoje, tivemos a quarta festa da edição. A festa que tinha potencial para ser a mais tranquila conseguiu bater todas as expectativas e acabou sendo uma das piores de todas as edições do programa. Lucas e Gilberto (gay, negro) demonstratam interesse mútuo durante a festa, o que pra muitos pareceu surpresa pois a bissexualidade de Lucas não havia sido ainda pautada em sua participação no BBB.


Aqui esbarramos em um tópico importante, que considero como a cereja do bolo de todos os acontecimentos. Há um debate que precisa ser feito em relação a como pessoas negras são enxergadas por outras. Em uma sociedade que opera dentro de um ideal monossexual, branco e cis, entender que pessoas negras também tem pluralidade em seus afetos e relações parece impossível. Pessoas negras que não ocuparem o lugar de fetichizadas para satisfação de pessoas brancas não são sequer dignas de expressarem suas vontades e desejos, sejam esses sexuais ou não. Em minha vivência enquanto pessoa negra posso afirmar que o entendimento da minha sexualidade e das minhas práticas sexuais foram e ainda são passíveis de dúvida e estranhamento, o que posso atribuir à noção monossexual, é claro; mas também nota-se um recorte racial a ser feito quando para além da dúvida, minha sexualidade ou qualquer demonstração da mesma passa a ser DESAUTORIZADA.


Lucas e Gilberto se beijaram na festa, protagonizando o primeiro beijo entre dois homens em 21 edições do programa. Se beijaram porque quiseram, sentiram vontade. Em determinado momento da noite, Gilberto classifica o beijo como um momento em que “sentiu safadeza”. Ao notarem o beijo dos brothers, outros participantes começaram a debater sobre as reais intenções de Lucas. Alguns dos comentários foram de questionamentos sobre o jogo até a própria invalidação da sexualidade do participante.


“Ele não falou nada sobre essa bissexualidade dele!”

“Ele está usando Gilberto para se promover”

“Ele está fazendo uma performance, brincando com uma pauta séria”

“Lucas é falador, e falador passa mal. Não serei palco para a sua performance com bandeiras sérias”


Não bastaram todos os estereótipos racistas que atribuíram à Lucas, agora ele teria que lidar com um grupo de pessoas questionando se sua sexualidade era real ou não. Na visão monossexual da maioria dos participantes, Lucas usou Gilberto para se promover e fingir que era bissexual. Houveram momentos em que ao tentar explicar sua sexualidade, os participantes RIRAM. Lucas comentou diversas vezes sobre estar feliz de expressar sua bissexualidade, falou abertamente sobre ser um homem preto bissexual e até chorou por não saber como o público ou até mesmo sua família reagiriam à sua saída do armário. Saída essa que foi bombardeada por um abuso que não se justifica. Mais uma vez Lucas é o vilão de uma situação que não diz respeito a ninguém além dele mesmo e de seus desejos.


[Aviso de Gatilho, estereótipos bifóbicos, violência]


Aqui fora nós, bissexuais, enfrentamos essa mesma dificuldade. Por sermos vistos como apenas uma performance, fomos estereotipados como perigosos e promíscuos. Homens, mulheres e pessoas não-binárias bissexuais são perigosas e vão lhe usar para o próprio prazer, quando não lhe usarem para se promover e usar da luta LGBTI+ para se vitimizar. Pessoas bissexuais, no entendimento monossexual, são confusas e apenas aguardam o momento de se sentirem confortáveis o suficiente para se assumirem completamente homossexuais. Bissexuais são os vetores de doenças que ousam ultrapassar a linha entre homo e hetero, os grandes vilões responsáveis pelo boom da AIDS. Bissexuais são as pessoas que detém o famoso privilégio hétero e que, dentro de sua heterossexualidade compulsória vivem uma vida confortável onde usam e abusam de pessoas gay, lésbicas e hétero.


Leiam com atenção o último parágrafo e me digam, bis, se já passaram por experiências parecidas ou ouviram esse tipo de absurdo de pessoas monossexuais. O nome disso é violência.


A bifobia se apresenta de maneiras tão intensas que apenas o discurso que cito acima foi capaz de ser o gatilho final para que Lucas desistisse de sua participação no BBB. Pessoas bissexuais, como Lucas, são as que mais demoram para se assumir com medo da represália que vem em peso da comunidade LGBTI+ e de fora dela. Pessoas bissexuais apresentam altos índices de problemas de saúde mental, altos índices de abuso e de abandono. Pessoas bissexuais sofrem abuso psicológico por serem bissexuais, ao mesmo tempo em que são convencidas de que sua orientação sexual não só é carregada de estereótipos nocivos, mas que também não existe. A violência que sofremos é taxada como homofobia ou lesbofobia, nunca reconhecida como específica. Pessoas bissexuais enfrentam represália institucional, onde até meses atrás houveram diversos casos de bissexuais assumidos terem que pagar indenização para seus cônjuges com a desculpa de esconder sua homossexualidade e enganar seus parceiros.


Lucas foi vítima de diversas estruturas que foram criadas para que pessoas negras fossem subjugadas pela via da racialização. Já cansado, não imaginou que poderia encontrar ainda mais violências e que ririam de um momento que pra ele, foi genuíno. Além de ter que lidar com toda a violência racial, Lucas sentiu que precisava provar para Gilberto que seu desejo era real e que realmente era bissexual. Desistiu do programa depois de dizer diversas vezes que não conseguiria ser algo que não era, que como homem preto e bissexual aquela era sua realidade.


Por anos desejamos a representatividade bissexual em um contexto mais próximo do nosso. A TV Globo tem um histórico bastante infeliz de personagens televisivos que reforçam os estereótipos aqui citados. Quando finalmente surge a possibilidade de que vejam a vivência de pessoas bissexuais REAIS, somos bombardeados com a violência bifóbica que, sem surpresa, acabou sendo perpetuada por membros da própria comunidade.


A violência exibida no BBB 21 é apenas um reflexo da realidade violenta que pessoas bissexuais, em especial pessoas negras, enfrentam cotidianamente. A consequência dessas violências foram o que levaram Lucas a desistir da chance de ganhar R$ 1,5 mi enquanto fora das câmeras da Globo eu vejo meus semelhantes desistirem não só dos espaços que ocupam, mas de si mesmos. O racismo em conjunto com as violências bifóbicas é um tópico pouco discutido e que precisa ser trazido à luz, não apenas para defender participantes de um reality show, mas para que nosso movimento se fortaleça e se comprometa como ativamente antirracista, além de apenas antibifóbico.


Gostaria de trazer um texto que falasse de outra coisa, que dissesse que nossa comunidade avançou nos debates e que a gente podia parar com a constante reafirmação e se preparar para lutar. A realidade da situação de Lucas me obriga a olhar para mim mesmo e me faz questionar quem são nossos aliados reais. Dentro da luta dos negros, quem é aliado dos LGBTI+?; dentro da luta LGBTI+, quem são os aliados dos bissexuais?; dentro da estrutura monossexual e racista em que fomos constituídos, haverá um dia sequer em que ser bissexual e ser negro vai deixar de ser, para muitos como eu, um combo de violências e situações aversivas?


À Lucas, meu apoio incondicional.

Aos bissexuais negros trans ou cis que lerem isso, toda força para nós.

A todo o restante que vê esses problemas e não se posiciona ou se informa o suficiente para lutar contra essas opressões, ou pior, que as perpetua: meu mais sincero vai tomar no cu. A bifobia e o racismo de vocês nos mata.

Posts recentes

Ver tudo