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Do GAEBI à REBIM: produzir conhecimento é um ato coletivo

Por Inácio Saldanha, Helena Monaco, Danieli Klidzio, Lobélia Rodrigues e Elisa Volpato



O Grupo Amazônida de Estudos sobre Bissexualidade (GAEBI) foi idealizado em 2019 por estudantes de psicologia em Belém, capital do Pará. Era o início do governo de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil e uma série de cortes e ataques à educação estavam em curso como nunca antes visto. A primeira reunião de estudo do grupo demorou meses para acontecer devido ao engajamento de seus membros com as manifestações realizadas no primeiro semestre daquele ano em todo o Brasil, como as que foram chamadas na época de “Tsunami da Educação”. Em junho, foi criado um perfil no Instagram e a programação foi divulgada também em outros meios, como no Twitter. Na época, havia algumas pessoas em Belém que se esforçavam em levantar um debate sobre bissexualidade em espaços do movimento LGBTI+, do feminismo negro e de instituições de ensino superior, realizando mesas, apresentações e rodas de conversa que eram recebidas com entusiasmo ou desconfiança pela suposta novidade do tema. Não havia registros de pesquisas realizadas sobre pessoas bissexuais na região Norte até aquela época, embora alguns estudantes de comunicação já começassem a fazer um esforço de analisar o apagamento da bissexualidade em meios de comunicação nacionais, como o G1 e as novelas da TV Globo.

A primeira reunião de estudos do GAEBI, em agosto de 2019, pensando a memória e a história da bissexualidade a partir da dissertação de mestrado de Elizabeth Sara Lewis, visava embasar e estimular o começo de uma produção voltada para o contexto local. Havia um certo entendimento de que o debate sobre o tema já estava avançado em outras partes do Brasil, especialmente na região Sudeste. De fato, o estado de São Paulo contava com a atuação do Bi-Sides, o coletivo mais conhecido e antigo em atividade, que naquele mesmo ano participou da II Semana da Visibilidade Bissexual de Assis, organizada na UNESP por Beatriz Hermans. Mas a dificuldade de levantar e fazer circular esse debate sempre foi enorme em todas as regiões do país, inclusive ali. O GAEBI e as Semanas da Visibilidade Bissexual de Assis se somavam a outros esforços de construir espaços voltados para o acolhimento, o reconhecimento e o aprofundamento dos estudos e dos estudantes interessados em espaços acadêmicos e para além deles. Ainda em 2019, o Grupo de Estudos Bissexuais foi criado por Nanda Rossi na PUC-Minas, em Belo Horizonte (Minas Gerais) e o Grupo de Discussão “Bissexualidade e Pansexualidade: distorções e invisibilidades” foi organizado por Samantha Rufino e outros colegas da UFRR no 40º Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom), em Boa Vista (Roraima).Todas essas iniciativas não estavam em contato na época, e a sensação de isolamento era muito comum, além de que o caráter esparso das publicações a respeito do tema desencorajavam a continuidade dos projetos e o risco de dispersão não deixava de ser possibilidade.

O início do GAEBI pareceu promissor, composto por um grupo de jovens estudantes de psicologia da UFPA, além de Inácio Saldanha, na época recém formado em história pela UEPA que, mesmo sendo de outra instituição e curso, se juntou ao grupo logo após as primeiras reuniões, tendo um envolvimento crescente até assumir a coordenação posteriormente com Beatriz Cruz. Apesar de seu objetivo primário ser a discussão de referências teóricas sobre bissexualidade, o grupo se transformou em um momento de trocas de experiências e relatos sobre os processos de como cada pessoa presente passou a se identificar como bissexual, e como isso afetou seus relacionamentos e relações com a família, as amizades e consigo mesma. Era a primeira vez em que tinham a oportunidade de falar sobre isso coletivamente, e aquele se tornou, instantaneamente, um espaço de acolhimento. Mas a frequência daquelas poucas pessoas não durou até o fim do semestre e uma das idealizadoras do grupo, Beatriz Cruz, decidiu desativá-lo temporariamente. As outras atividades também não tiveram continuidade imediata.


No fim daquele ano foi descoberta uma doença viral. A sua dispersão pelo mundo foi tão rápida que a nova infecção respiratória foi batizada como COVID-19 quase ao mesmo tempo em que se reconhecia uma pandemia. As medidas de segurança incluíam o uso de máscaras e o distanciamento social, para o qual grande parte das atividades presenciais em todo o mundo precisaram ser suspensas, ainda que desafiadas por grupos e autoridades conservadoras, como foi o caso do governo brasileiro de então. No caso dos eventos acadêmicos, a adoção do formato remoto tornou-se vital durante a pandemia, levando à adoção de estratégias de divulgação e engajamento próprias dos meios digitais. Uma lista de perfis do Instagram publicada pela Semana Acadêmica de Ciências Sociais (SemanaCS) da Unicamp incluiu, em meados de 2020, dentre outras, a do GAEBI, que estava inativa desde a suspensão das reuniões no ano anterior. A relativa repercussão estimulou a reativação do grupo, agora em formato remoto e sob a coordenação de Beatriz e Inácio.

Para a surpresa dos organizadores, a primeira reunião realizada virtualmente recebeu pessoas de diversas regiões do país, e iniciou a formação de um público nacional. Se a proposta inicial era sanar uma carência regional de espaços de discussões, o grupo amazônida acabou por encontrar uma carência sentida nacionalmente e, embora jamais tenha sido voltado apenas a pesquisadores, passou a atrair cada vez mais pessoas que se dedicavam a pesquisas científicas sobre o tema. A sensação de isolamento e constrangimento era relatada com frequência nos encontros quinzenais por jovens que cada vez mais levavam o debate sobre a bissexualidade para os grupos de pesquisa e eventos voltados para gênero e sexualidade. As dificuldades incluíam o não reconhecimento do tema como sério ou teoricamente rentável (ou mesmo como um tema em si, supostamente diluído em questões de gays e lésbicas ou heterossexuais), a indisponibilidade ou falta de interesse ou conhecimento por parte de possíveis orientadores, a solidão no contato com uma bibliografia especializada que circulava pouco e o silêncio sobre a bissexualidade em grande parte dos trabalhos sobre LGBTI+ e teoria queer.

O acolhimento promovido pela existência de um espaço coletivo levou ao prosseguimento de algumas pesquisas e a uma maior segurança por parte das pessoas que o frequentavam. Mas isso não quer dizer que as diferenças desapareceram. O fato de o GAEBI ser organizado a partir da região Norte, mesmo tendo um alcance nacional, provocou a interrupção de suas atividades durante o apagão que ocorreu no estado do Amapá em novembro de 2020. Beatriz Cruz encontrava-se no estado durante as semanas em que a comunicação e o acesso aos mais variados serviços ficou comprometido, provocando fome, surtos de dengue e COVID-19 e protestos reprimidos pela polícia militar. As inscrições de um encontro marcado para aquele mês ficaram inacessíveis, e a demora com que a informação sobre a calamidade no Amapá circulou impediu que houvesse aviso prévio às pessoas inscritas. O perfil do GAEBI passou a compartilhar informações e meios de doação para o estado, que não recebeu a devida atenção do governo federal e dos meios de comunicação nacional, e cuja situação de abandono era inclusive justificada por pessoas de outras regiões.



Mas as atividades do grupo voltaram assim que a energia elétrica foi parcialmente restabelecida no Amapá, ainda em regime de racionamento. Ao longo de 2021, o GAEBI cresceu e o comprometimento coletivo levou à realização de diversas atividades inéditas para além dos encontros de estudo, como minicursos, um simpósio temático e parcerias com coletivos ativistas e entidades acadêmicas. A promoção e a divulgação de leituras passou a incluir cada vez mais textos novos e de diferentes áreas do conhecimento, além da garimpagem de trabalhos que até então não estavam disponíveis na internet. O alcance e a força que a bissexualidade assumiu como tema de debate do Brasil também cresceu de uma forma que pareceria irrealista poucos anos antes. Espalhados pelo país, integrantes do grupo passaram a levar a bandeira bissexual para suas defesas e apresentações, mas também (literalmente) para as ruas, como nas manifestações contra Jair Bolsonaro e suas políticas anti-gênero, anti-sexualidade e negacionistas em relação à ciência e à pandemia.



Esses esforços de difundir os estudos e fortalecer os espaços coletivos voltados para a bissexualidade levaram à realização do I Seminário Nacional de Estudos Bissexuais (SENABI) em dezembro de 2021 pelo GAEBI, em parceria com o grupo de pesquisa Descolonizando a Comunicação e o Departamento de Comunicação, ambos da UFRN. O I SENABI contou com o apoio de projetos de divulgação científica e entidades do movimento LGBTI+, especialmente o bissexual, como a Frente Bissexual Brasileira. A programação online de três dias reuniu ativistas e pesquisadores de diferentes gerações, em torno de debates como saúde mental, representação e representatividade, ativismo e marcando as três décadas de estudos voltados para o tema no Brasil. A realização do evento envolveu a produção de uma memória, a construção de um espaço de pertencimento e partilha, além do fortalecimento de uma rede e o reconhecimento por parte do movimento bissexual nacional e internacional.


No início de 2023, com o fim oficial da pandemia de COVID-19 e a saída de Beatriz Cruz da coordenação, para dedicar-se à sua vida profissional, foi discutida a necessidade de repensar a estrutura e a organização do GAEBI. A intenção de construí-lo de forma ainda mais democrática levou ao reconhecimento de que ele passou a ser um grupo nacional, com integrantes ativos em diversas regiões, o que não implica em uma subalternização ou esquecimento da região Norte. Como discutido coletivamente, o grupo passou a ser a Rede Brasileira de Estudos sobre Bissexualidade e Monodissidência (REBIM), com o intuito de levar adiante os encontros de estudos, as próximas edições do SENABI e a comunicação entre acadêmicos que se interessam pelo tema, e deles com o movimento social. As diferenças, em vez de serem agora deixadas de lado, são trazidas para o centro para se avançar produzindo um conhecimento diverso e maduro, e não mais isolado.



A REBIM traz de volta o grupo de estudos aberto, além de oferecer um espaço de debate interno para pessoas pesquisadoras sobre seus trabalhos, e divulgar atividades e publicações. Esperamos, a partir de agora, promover e difundir os estudos sobre bissexualidade e outras identidades e categorias não monossexuais de forma mais democrática e abrangente. Se você tem curiosidade em aprender mais sobre bissexualidade, realizar pesquisas e ter contato com pessoas que trabalham com o tema, lhe convidamos a participar das atividades que compartilhamos em nosso Instagram ou a entrar em contato pelo endereço rede.rebim@gmail.com.

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