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Como a minha bissexualidade mudou o modo como me relaciono com homens

Que o mundo é machista, a maioria de nós já sabe. Mas que por ser bissexual as nossas relações diversas são recheadas de machismo, também. Aqui vai o relato de uma mulher bissexual e como o fato de que me relaciono com pessoas de todos os gêneros acabou afetando o modo como eu me relaciono com homens.


Eu fui me entender bissexual, ou pelo menos “não-hetero” relativamente nova, antes mesmo do meu primeiro relacionamento, que foi com um homem, aos 16 anos de idade. Mas o fato de eu ser bissexual e saber disso, não me impediu no auge da minha adolescência de ter ideais românticos recheados de heteronormatividade e de clichês hollywoodianos. Meu contato com os feminismos ainda era bastante raso, e o contato com uma comunidade bissexual era impensável, acho que em 2014 isso ainda nem existia direito.


Foi com estes pensamentos e bases de relacionamento que fui ao meu primeiro encontro, fui pedida em namoro e pautei a minha relação. Eu queria que ele pagasse por alguns dos encontros, apesar de ambos sermos adolescentes quebrados; não me passava pela cabeça de nenhuma forma que eu poderia ter pedido ele em namoro, ou então que eu poderia chamar ele para sair ou determinar o lugar para onde iriamos aquela semana. Enfim, vocês entenderam, eu queria que ele fosse um homem e agisse como tal, com toda a masculinidade tóxica possível, por que isso era o ser homem na minha cabeça, e eu como mulher também tinha o meu lugar, o lugar de não precisar me preocupar com essas coisas bestas, afinal as decisões seriam tomadas por mim.


Quando terminei a relação com este rapaz, eu comecei a sair com mulheres, ativamente baixando aplicativos para encontrar mulheres e sair com elas. Acontece que para a minha surpresa, não existia um homem na relação (chocada), então quem iria chamar quem para sair, quem pagaria pelos encontros, quem pediria quem em namoro......... Minha cabecinha bissexual entrou num bug longo no qual nada mais na minha vida fazia sentido, até que entendi que ambas as partes fariam parte de tudo. Uma vez uma chamaria a outra pra sair, uma ou as duas em conjunto decidiam o que gostariam de fazer e para onde ir, existia essa coisa simples chamada comunicação, e com isso algo inesperado, eu aprendi que eu gostava de ter um papel ativo na relação, e para elas isso nada mais era do que normal. Claro que relacionamentos com mulheres nem sempre são a coisa mais linda do mundo, mas isso fica para um outro texto.


Agora, depois que eu descobri que eu poderia chamar uma outra mulher para sair se eu me sentisse interessada, e isso seria visto como algo normal, quando voltei a me relacionar com homens, tudo voltou a não fazer sentido, pois quando eu tinha a mesma atitude que eu tinha com mulheres, com um homem, este me via como desesperada “ela tá taaaaao na sua”, como atirada, fácil etc. Todos os nomes dados para mulheres que exercem o mesmo direito sobre seus corpos e desejos que homens. Que fique claro que os papéis de gênero que minha bissexualidade rejeita são maiores do que quem vai pagar a conta, ela rejeita as heteronormatividades intrínsecas ao homem com masculinidade tóxica e que tem orgulho de tal.


E é este o ponto principal deste texto, sim, é um texto sobre bissexualidade, sobre a minha vivência como mulher bissexual me relacionando com homens, mas outras mulheres de outras sexualidades podem ter tido a mesma experiencia que eu depois de um tempo. Afinal a problemática aqui não é especificamente sobre bifobia, mas sim sobre o machismo que enfrentamos no nosso cotidiano.


Após eu entender qual papel eu gostava de desempenhar uma relação, como eu, eu por eu mesma e não pelas heteronormatividades, gostaria de viver a minha vida com outras pessoas, se tornou bastante difícil me relacionar com homens-cis e heterossexuais, pois na minha experiencia, eles esperam de mim uma submissão que eu não tenho, e estranhavam a assertividade que tanto amo em mim. Ainda não é normal para um homem hetero-cis aceitar ser chamado pra sair por uma mulher, e principalmente, que isso não demonstra desespero, nem nada além de uma coisa simples: interesse. Ainda não é normal para um homem hetero-cis sair com uma mulher que não se rebaixa, nem se desvaloriza para encher o ego dele. Ainda não é normal para um homem hetero-cis sair com uma mulher que não se conforma com papéis de gênero, e essa expectativa é cansativa.


Como uma mulher bissexual, a desconstrução ao menos parcial desses papeis de gênero dentro de uma relação, foi basicamente obrigatória, não havia opção de me relacionar com uma mulher esperando um homem. Mas para mim, quando me encontrei e me entendi um pouco fora desses papeis, se tornou impossível de me relacionar com um homem que espera de mim algo menos do que eu sou. Eu sou uma mulher bissexual muito tranquila com a minha própria sexualidade e orientação sexual, bastante não conformada com papéis de gênero e isso veio incrivelmente mais pela minha relação afetiva-amorosa com outras mulheres do que por textos feministas que eu li. E todas nós sabemos, que uma mulher não conformada com papéis hetero-cis-centrados, não é uma mulher para homem padrão, heteronormativo e conformista de gênero.


A minha descoberta de que para me relacionar com a maioria dos homens heteros-cis eu teria que apagar parte de mim para fazê-los confortáveis veio pela minha bissexualidade e minha relação com outras mulheres. Mas muitas outras podem ter chegado nas mesmas conclusões que eu por outros caminhos e experiências. O que eu desejo, é que algum dia a gente não precise fazer um recorte de sexualidade e gênero para nos relacionarmos com alguém, mas por enquanto sigo feliz em não agradar o padrão.