• Ká Filho

Sobre o Festival, sobre a Frente e sobre mim

Atualizado: Out 3

Texto de Ká. Artista da imagem desconhecido.


Bom, faz alguns anos que eu entrei na militância. Com 16 anos entrei para o grupo do Facebook do Bi-Sides, e logo em seguida já participei da segunda Semana da Visibilidade Bissexual de São Carlos, organizado em geral por militantes autônomos. Eu estava no segundo ano do ensino médio, tinha acabado de ser expulso da casa do meu pai pelo meu cabelo, estava ainda lidando com a anorexia e ao mesmo tempo preocupado se iria passar de ano.


Muitos se surpreenderam pelo fato de eu ter procurado tão cedo esse rolê. Eu procurei cedo esse rolê pois precisava de uma rede de apoio, precisava conhecer pessoas iguais a mim. Mais especificamente pessoas mais velhas que poderiam me mostrar uma perspectiva que eu tinha perdido há muito tempo. Logo no ano seguinte eu ajudei a organizar essa Semana da Visibilidade da minha cidade, ainda no terceiro ano do ensino médio. Tive a responsa de trazer tudo que isso trouxe para mim para mais lugares além do ambiente universitário. Nas praças de batalhas de rap, nos bairros mais afastados e periféricos em que eu e minha família moramos, perto das escolas secundaristas. No mesmo ano também me uni aos grupos anarquistas e antifascistas da cidade, trazendo essa mesma perspectiva que faltava demais em ambos movimentos.


É muito louco pensar nisso tudo em retrocesso e no nosso contexto atual. Eu sempre pautei que ninguém precisa estar atrelado à um coletivo ou partido para qualquer ativismo, eu mesmo fiz coisas fantásticas com pessoas extraordinárias sem nunca me filiar a nada. Mas foi nesse ano que entrei pro Coletivo Bi-Sides, e para a Frente Bissexual Brasileira.


Foi definitivamente um passo. Conheci ainda mais pessoas fantásticas que davam a vida pelo ativismo. Pesquisadores, profissionais da saúde, teóricos, professores, artistas, infelizmente poucas pessoas fora do meio acadêmico, mas dessas poucas, todas extraordinárias. Ninguém precisa estar em um coletivo para ser ativista, mas certamente estar em um coletivo te da muito mais contato e confiança de fazer seu ativismo. Obviamente que ajuda muito o fato do Bi-Sides se colocar como anarquista, e mais ainda o fato da gestão ser baseada nas particularidades individuais.


2020 foi um passo em vários sentidos, tanto pra mim, quanto pro movimento bissexual em si. Esse ano ocorreu uma união histórica entre coletivos e ativistas independentes de todo o Brasil que resultou na formação da Frente Bissexual Brasileira. E o primeiro feito dessa Frente foi fazer o Festival Bi+, com mais de 9 horas de duração com artistas, bate-papos e discussões sobre militância bi. Foi histórico, a prova disso é a movimentação que está tendo de redizer o dia 26 de setembro, o dia do evento, como o Dia Nacional da Visibilidade Bissexual. Esse é o tamanho da importância.


Eu participei de quase todos os processos desse festival, mas na hora, infelizmente, ambas as mesas que eu mediei não foram tão bem. Uma delas ocorreu um problema de conexão entre basicamente todos os participantes, e a outra foi atrapalhada pelo meu nervosismo causado pela anterior, que falhou. Entretanto, a frustração passou rápido quando consegui ver a mesa sobre a história do movimento bissexual no Brasil. Lendas como Daniela Furtado, Dani Brígida e Regina Faccini falando sobre um momento histórico que a simples identificação como bissexual era rara e apagada, passando pela criação do Bi-Sides, o coletivo ativo mais antigo de bissexuais, e chegando por fim na criação da Frente. Porra!


Em momentos na construção do evento que dava vontade de desistir, estresses por conta de planejamentos e discussões desnecessárias, tudo isso foi superado. Essa mesa em específico superou. Me mostrou o quão importante é tudo o que eu (aliás, nós) estava fazendo. Mais de 1000 pessoas no geral assistiram o Festival. Para além, conseguimos manter uma média de 70 pessoas do começo ao fim. Isso é histórico, é mostrar que a gente não precisa das migalhas de representatividade das siglas anteriores para sobreviver. GLS acabou faz tempo. Para além, nós fazemos a nossa própria visibilidade, de maneira íntegra e autônoma.


Não vou mentir que esse Festival não saturou. É tudo que eu pensava por meses e meses, o que me fazia ficar com o olho estralado a noite toda. E certamente vou precisar de umas férias do ativismo depois disso, mas seria injusto falar que não foi um passo. Foi um passo do caralho, logo no primeiro ano que entro para o ativismo organizado. Foi um passo pra mim e para todo o movimento bissexual do Brasil.


Eu, Ká, apoio completamente essa onda pedindo para que dia 26 seja o Dia Nacional da Visibilidade Bissexual. Isso seria mais um passo na utopia da bissexualidade integral, decolonial, política, nacional e autônoma. Sobre autonomia dos nossos corpos, dos nossos amores. E é sobre isso, me sinto completamente orgulhoso de fazer parte do Festival, da Frente, do Bi-Sides. São esses os lugares que eu perco a cabeça, mas são também esses lugares que tenho pessoas para me segurar quando me perco. É sobre redes de apoio, sobre a luta por todos. E eu espero fortemente que esse não seja o último passo.


Mal posso esperar o que vem pra frente dentro disso que chamamos de Movimento Bissexual.