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Minha bissexualidade é uma ferramenta política

Tradução de Natasha Avital do texto mi bisexualidad es una herramienta política, de Natália Wuwei, postado sob o nome de usuária wuwei9 no blog Reflexiones Degeneradas.


Nesse texto, quando falo da cultura da monogamia falo dela não como quantidade de relacionamentos, mas sim como estrutura de poder ou sistema. Utilizo multissexual como termo para me referir a todas as orientações ou identidades não monossexuais onde existe uma atração sexual e/ou afetiva por mais de um gênero, dentre as quais se encontram a bissexualidade, polissexualidade, pansexualidade, etc etc)


É frequente que em ativismos e políticas radicais contra o heterossexismo e o patriarcado nos vejamos às voltas com a necessidade de nos empoderarmos através de toda a simbologia que nos foi imposta; se usa muito frequentemente o feminismo e a lesbiandade para combater o heterossexismo e o machismo. É possível que as identidades multissexuais fiquem à margem destas políticas? A luta contra o monossexismo também é uma luta contra o heteropatriarcado? E mais: tem sentido uma luta contra o monossexismo? Ter que “postular” essa última pergunta pode ofender a muitas pessoas oprimidas por essa estrutura de poder, já que sendo oprimidas isso não teria que entrar em questão, mas muitas outras pessoas seguem insistindo que tal opressão não existe e portanto que é uma luta sem sentido. Quero neste texto, não apenas reivindicar a luta contra o monossexismo como a luta contra a opressão direcionada a pessoas com identidades não monossexuais, como também como uma luta que ataca diretamente o próprio patriarcado, o heterossexissmo e outras estruturas mais. O apagamento constante de nossas opressões impede a percepção de que no monossexismo se escondem muito mais pressões sociais do que poderia parecer a princípio. O monossexismo serve inclusive para perpetuar a cultura da monogamia imposta, para exercer pressão para a “estabilidade” social definida e para o capitalismo. E sobretudo, o monossexismo serve para perpetuar e fortalecer o heterossexismo e o machismo.


Nos lêem, às pessoas bissexuais e de outras identidades multissexuais, como metade heterossexuais e metade homossexuais. Nossas vivências são sempre lidas a partir de uma perspectiva puramente mnossexual. Isso faz parte da estrutura monossexista na qual a bissexualidade como experiência diferente da monossexualidade é totalmente apagada. Por que este apagamento? O heteropatriarcado tem algum interesse em que as pessoas monossexuais não existam?


Um dos principais interesses do patriarcado é marcar uma linha muito bem definida entre a construção 'homem' (o privilegiado) e a 'mulher' (e evidentemente erradicar a possibilidade da existência de outros gêneros). Esta hierarquia binária, pra manter-se, deve estar reforçada com outras estruturas que ajudem a sustentá-la, como o heterossexismo. A construção e hierarquia patriarcais se alimentam da heterossexualidade para manter o privilégio da masculinidade hegemônica. O heterossexismo nos diz o que com certeza é 'correto', 'aceitável' e 'são' (inclusive natural!): a heterossexualidade. O heterossexismo é uma ferramenta patriarcal com um poder incrível: nos marca, por exemplo, quem são 'os homens de verdade', aqueles que tem acesso à propriedade das mulheres e de sua reprodução, aqueles que acessaram mais privilégios no geral, e quais foram descartados desse grupo. O heterossexismo não nos diz que a 'homossexualidade' não existe; aceita sua existência, porém a põe em uma posição 'danosa', 'discriminável' e 'fora da rede do aceitável'. E, especialmente, lhe interessa poder detectar tais pessoas 'daninhas' para limpar o heteropatriarcado do possível dano que estas possam criar dentro de sua rede. Ou seja, que sejam assinaladas e excluídas.


É nesse ponto que a não monossexualidade entra em cena. Que interesse tem o heteropatriarcado em esconder a possibilidade de que a não monossexualidade exista? Em uma estrutura hierárquica como a heteropatriarcal, tem muito valor marcar bem a diferença de gênero e também a de orientação sexual. Esta diferença não pode ser ameaçada por nada que possa deixar estes limites e hierarquias confusos. O monossexismo é uma estrutura que o heteropatriarcado gera para poder manter as hierarquias de gênero e de orientação sexual. Qualquer fator que possa 'perturbar' a divisão hetero/homo deve ser automática e completamente apagado. É esta mesma ideia que criou a bissexualidade com todos seus estereótipos e mitos a seu redor. Devemos lembrar de Freud, exemplo de que o próprio monossexismo 'inventou' a bissexualidade enquanto desejo sexual (não enquanto orientação sexual ou opção válida) e a colocou em um passado primitivo, atribuindo a ela a pecha do não possível e do inexistente. Todos os estereótipos da bissexualidade estão fortemente ligados ao medo social da existência de algo que possa ir 'saltando' entre dois mundos criados para serem 'estáveis' e não se tocarem, pela necessidade de que sejam hierarquicamente opostos. O monossexismo estabiliza o heterossexismo.


Nós, pessoas bissexuais, somos instáveis, não existimos, somos contagiosas, traidoras, excessivas, infiéis….com certeza: nossa vivência está marcada por uma essência repleta de conceitos lidos como socialmente danosos enquanto ao mesmo tempo se nega constantemente nossa existência e continuam nos lendo como metade uma coisas e metade outra, como se tratasse-se de um binário hetero/homo. Nossas vivência não monossexuais não existem, só existem quando querem nos lembrar que somos a soma de duas coisas (daí vem o estereótipo de nossa hipersexualidade ou promiscuidade), que variamos entre dois estados (vem daí o estereótipo de nossa infidelidade ou traição), que todo mundo na verdade pode ser bissexual (vem daí nossa inexistência), de que vivemos entre dois mundos (vem daí nosso estereótipo de sermos uma infecção contagiosa), de que não sabemos escolher entre as duas monossexualidades (vem daí o estereótipo da confusão, instabilidade e fase). Nossa opressão não fica aparente já que não se aceita nossa existência fora de uma combinação dos dois únicos estados que o heteropatriarcado define como estáveis: o bom e o mau.


Através do monossexismo o heteropatriarcado pretende estabilizar as hierarquias. A existência da não monossexualidade põe em xeque qualquer forma de poder demonstrar a própria existência da heterossexualidade (e portanto dos privilégios que se outorga a ela); nosso suposto 'poder de escolha' põe em xeque a construção heterossexista do 'nascemos assim' ('born this way'); nossa suposta 'não preferência' na escolha de gênero põe em xeque as próprias hierarquias de gênero e a matriz heteropatriarcal; nossa suposta 'promiscuidade' faz tremer o tipo de cultura monogâmica heteropatriarcal, possessiva e instável. A existência da falta de estabilidade, da possibilidade de mudança, da fluidez, da escolha, é inimiga da insensibilidade relacional que nos foi imposta por todas as estruturas do capitalismo. O monossexismo nos 'estabiliza', nos 'encerra', 'nos 'estanca', e não nos permite levar em conta as constantes mudanças, vontades e desejos das outras pessoas. O monossexismo nos enfia em nossas 'caixas', totalmente hierarquizadas. O monossexismo é inimigo da mudança.


Minha bissexualidade não é uma identidade sexual; tampouco quero me normalizar. Eu a uso em minha luta contra o monossexismo como ferramenta política. É uma ferramenta contra o heteropatriarcado. É uma ferramenta contra a hierarquia e a demanda constante de uma estabilidade imposta para manter estruturas. É uma ferramenta de infecção, contra o medo da mistura, do que se define como “excesso”, da fluidez. É uma ferramenta a favor das fases, e a favor da sensibilidade constante voltada às pessoas que nos cercam e às quais nos vinculamos. É uma ferramenta a favor da escolha, e do respeito constante ao consentimento. É uma ferramenta que pretende explorar qualquer tentativa de normatização que queira me fazer parecer uma boa bissexual, lésbica e/ou heterossexual. É uma ferramenta a favor do que foi definido pelas estruturas como “o verdadeiro”. É uma ferramenta pró-escolha e que junto ao feminismo me permite colocar normas e limites que posso escolher com base em parâmetros políticos. É uma ferramenta a favor da mudança, uma ferramenta que rompe com a ideia de que o lido como primitivo é algo insano e o “evoluído” (como as estruturas de poder hierárquicas) é necessário e bom. É uma ferramenta contra a construção binária de natural/artificial. Definitivamente, é uma ferramenta contra a ordem estabelecida, a favor da multiplicidade, do híbrido, da mudança e da não suposição, que nos permite acessar de forma mais sensível nossos desejos e os das outras pessoas.